Imagem: Reprodução/ Twitter

Ouça essa matéria na integra

Eis que, após conviver durante semanas com estrambólicas teorias, que brotavam feito mofo nos rejuntes do Twitter, através de estridentes pavoneios que incutiam no imaginário dos incautos toda sorte de figuras misteriosas, hackers russos treinados pela KGB, influentes milionários com inconfessáveis interesses e vultosas e secretas transações financeiras com bitcoins, o Brasil – esse país onde se morre de dengue, febre amarela, sarampo, malária, mas jamais de tédio – foi apresentado, atônito, aos responsáveis pela novela que ultimamente tomou conta dos noticiários;

são eles: o Vermelho, o Danilo Cristiano, o DJ Elias e a Suellen Priscila.

Ficamos sabendo que o cérebro da equipe, o Vermelho (um sujeito cuja capivara dá umas duas voltas no globo terrestre), usando de artifícios tecnológicos rudimentares, invadiu os aparelhos celulares de quase mil pessoas, incluindo dois ex-presidentes, um ex-governador, um ministro do STF, um deputado federal, diversos integrantes do judiciário e do ministério público e uma ex-candidata a vice-presidente; mas infelizmente ele não conseguiu descobrir o contato do intrépido jornalista investigativo que tanto admirava e para quem desejava entregar o fruto de seu trabalho.

Então ele ligou pra Manu.

E a Manu, ao ter o telefone invadido por um desconhecido, ao contrário de meros mortais como vocês e eu, que certamente ligariam imediatamente para a operadora e correriam para a delegacia mais próxima, fez o quê?

Claro: colocou o invasor em contato com o jornalista que, só por coincidência, faz parte da patotinha dela. A participação da Manu nessa história acabou aí e foi mesmo só essa: e vocês serão muito maldosos se não acreditarem.

O melhor, contudo, ainda estava por vir: uma vez em contato com o famoso jornalista investigativo e de posse de infinitos terabytes de informações interceptadas e surrupiadas, curiosamente o Vermelho só forneceu a ele as conversas do pessoal da Lava Jato;

mas atenção: não foi qualquer conversa!

Nós não vimos, pelo menos até o momento, mensagens trocadas que evidenciem terríveis abusos cometidos no processo que culminou na prisão do Eduardo Cunha, por exemplo. Aparentemente também não houve nenhuma conspiração para prender o Sergio Cabral.

João Santana e Mônica Moura? Não, foi tudo tranquilo.

E o Palocci? Alguém cometeu algum abuso com ele? O Delcídio do Amaral, talvez?

Não: segundo nos informou o Vermelho (e o famoso jornalista apenas nos fez o favor de reportar, exercendo seu sagrado ofício com competência e absoluta isenção), os malvados Moro & Deltan só manipularam, conspiraram e atropelaram a ética, as formalidades legais e o estado-democrático-de-direito nos assuntos relacionados à alma mais honesta do Brasil, ao injustiçado vocês-sabem-quem.

E nós, claro, acreditamos.

Afinal, só porque o sujeito já foi indiciado por estelionato, furto qualificado, apropriação indébita, falsificação e tráfico de drogas e só porque, mesmo sem ter ocupação conhecida, gosta de ostentar, exibindo carrões e fotos de viagens ao exterior em suas páginas nas redes sociais, ou ainda, só porque seus conhecidos o comparam a Frank Abagnale Jr., o famoso golpista americano interpretado por Leonardo DiCaprio em Prenda-me se for Capaz, não há motivos para duvidarmos dele;

e, principalmente, não há motivos para duvidarmos que esse fabuloso personagem possa ter feito o que fez sem nenhum interesse, movido apenas pela convicção de fazer justiça e revelar a verdade ao povo brasileiro.

Sim, Vermelho é obviamente um patriota!

Contudo, apesar de seus nobres fins, o que Vermelho fez foi altamente ilícito e é inevitável que ele passe uma longa temporada atrás das grades. Impossível, porém, não notar que o herói de Araraquara é provavelmente o maior arquivo vivo de segredos da República que só ele conhece.

Vocês já imaginaram o que tem no celular do Pezão? E no do Janot? Já pensaram quanta coisa poderíamos ficar sabendo, envolvendo os irmãos Batista e a operação Derruba-Temer?

E será que se procurar bem, lá no meio daquele monte de coisas, a gente não acharia um hackeamento do celular daquele desembargador que, durante um plantão, num domingo em que a galera estava distraída com a Copa do Mundo, quase colocou na rua o presidiário mais famoso do Brasil?

E os ministros do STF? Foi só o Alexandre de Moraes que ele hackeou? Será que não tem o Gilmar Mendes? Vocês já imaginaram no que se poderia ficar sabendo através do celular do Gilmar Mendes, também conhecido por “nosso causídico” nos meios tucanos? Por outro lado, se ele tiver hackeado os celulares da Carminha e da Rosa Weber, eu nem ia querer ver porque devem ser um tédio. Mas o do Lewandowski eu queria: será que não tem uns áudios marotos trocados com o Renan Calheiros, naquele dia em que eles rasuraram a Constituição bem diante dos nossos olhos, só pra que fossem mantidos os direitos políticos da Dilma?

E o celular da Dilma? Ah, as conversas da Dilma eu gostaria muito de ver; até me proporia a ajudar o Vermelho a traduzi-las para o português.

Só nos resta agora esperar que, quem sabe, daqui muitos anos, quando mais nenhuma dessas figuras, incluindo o famoso e implacável jornalista investigativo, tiver relevância na vida nacional, o Vermelho e os incríveis russos de Araraquara, após terem cumprido suas penas, nos brindem com um livro – ou vendam os direitos sobre a história para a produção de um filme.

Eu vou ser o primeiro a comprar ingresso.