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Vamos lá, por que o jovem não quer mais ter carro?
Poderíamos ser simplistas e falar: “PORQUE TÁ CARO!”, como vai aparecer um monte de gente comentando esse texto antes de ler.
Mas não é tão simples assim, meu rei. Até jovens com posses, herdeiros, não querem mais ter um automóvel.
Então, vamos analisar ponto a ponto…
Eu nasci em 1981, cresci nos anos 80, onde nossas referências eram nossos pais, professores e o pouco de televisão que víamos. Digo pouco de televisão, pois tínhamos basicamente dois canais, com programação infantil por algumas poucas horas por dia; o resto da nossa experiência era adquirida na vida real mesmo, conversando e ouvindo os mais velhos.
É difícil falar de mim, pois sou uma exceção à regra. Meu pai me criou dentro de uma oficina mecânica; desde muito novo eu já conhecia Gol GTS e Kadett GS. Mas, enfim, todos os garotos da minha idade cresceram ouvindo seus pais, tios e avós falando de carro. O carro sempre era pauta na mesa do almoço de domingo na casa do vô. Quando se menos esperava, você ouvia um tio perguntar para outro: “seu Opala bebe muito?” e ali se iniciava um assunto interessante, que, apesar de não ser para crianças, prendia a atenção só pela empolgação dos mais velhos.
Vieram os anos 90, os mágicos anos 90, com o início das importações de veículos que jamais imaginávamos. Nós mal havíamos conhecido eles na recém-chegada TV a cabo e internet discada, e já víamos nas ruas Mitsubishi Eclipse e Ford Mustang. Era uma nova paixão que nascia; nosso coração ficava dividido entre a menina da escola, o Corinthians e uma Dodge RAM. Foi o ápice da cultura automotiva brasileira. Todo garoto tinha um caderno com a foto de um carro esportivo na capa. Se antes sonhávamos com a Luma de Oliveira, agora sonhávamos com a Luma de Oliveira dentro de uma BMW Z3.
Eram carros de rico, mas veja bem, nós só sonhávamos com coisas de rico. Ninguém sonha em ir de trem para Carapicuíba; sonhamos em ter a vida do Eike Batista e não a do Sr. Nelson, que vende amendoim na estação Tatuapé. É esse sonho que nos mantém vivos; é sonhar em conquistar que nos faz ter força toda segunda-feira para começar uma árdua semana de trabalho, é a esperança de um dia ter algum luxo.
Final dos anos 90, para a minha geração, chegava o tão esperado momento: a maioridade e a hora de tirar a habilitação, que não só eu, mas todos os meus amigos, amanhecemos na porta da autoescola na manhã em que fizemos 18 anos. Não íamos dirigir a Audi RS2 que usávamos de wallpaper no PC, mas estávamos dando o primeiro passo.
Outro ponto importante que você, jovem que está lendo este texto, deve saber: tudo o que um homem faz na juventude é para conquistar mulheres. Tudo. Ele trabalha para conquistar mulheres, lava a louça para a mãe para poder sair atrás de conquistar mulheres. E quando se fazia 18 anos, era obrigação do homem ter um carro; caso contrário, a chance dele com qualquer garota se reduzia drasticamente. A menina aceitava andar até na garupa da bicicleta do namorado até ele ter 17 anos, 364 dias, 23 horas e 59 minutos; depois disso, ela o via como fracassado.
No início dos anos 2000, o excelentíssimo presidente facilitou o crédito, e o carro deixou de ser um artigo de luxo, ou seja, o sonho facilmente virava realidade. Porém, houve uma mudança de direção: com o seu tio cobrador de ônibus, que devia 200 reais para seu pai e vivia falando em vender a casa da sua avó para comprar um Gol GIII, você automaticamente perdia o encanto por carro. Nisso, os carros que sonhávamos, como Audi A3 e VW Golf, caíam na mão de pessoas que não faziam ideia do que tinham em mãos, e pior, não tinham dinheiro para cuidar. Era o início da era do “resto de rico”.
Se você pegar um Gol GTI de primeira geração, verá uma variação muito grande de preço. Ele foi lançado por um valor altíssimo; com a chegada de novos modelos no início dos anos 2000, o brasileiro sem nenhuma cultura automotiva jogou-o fora. Ele teve então uma baixa de preço enorme, caindo na mão de qualquer Zé que colocou banco de couro vermelho e neon no painel tentando modernizar o carro. As poucas unidades que restaram hoje custam o equivalente ao que custaram 0 km. Os anos 2000 foram o período das trevas para o mercado automotivo.
Mas e os jovens hoje em dia, por que perderam o interesse em carros?
Vamos lá aos pontos:
Chegaram os anos 2010, com eles uma juventude afrescalhada que, de tanta falta de problemas, começou a ter consciência social, exaltando o transporte público e brinquedos como bicicleta e patinete. Esse foi um dos pontos que fez uma parte da molecada perder o interesse em carro.
Tem também aquele negócio de que as até então inalcançáveis menininhas loiras de olhos azuis de Pinheiros estão disponíveis na internet, sem você precisar passar o sábado trocando a embreagem do seu Passat TS.
Outro ponto que pesa muito é o emprego que o jovem tem hoje em dia. Tirando quem teve sorte de ganhar dinheiro com internet mexendo a bunda e falando pornografia (ou escrevendo besteira que nem eu tô aqui), a grande maioria dos jovens, influenciada por uma vida fútil de subcelebridades do Instagram, se recusa a ter empregos de verdade como mecânico ou pedreiro. E como não são inteligentes o suficiente para cursar uma faculdade de verdade e se formar em uma área com emprego, acabam se formando em publicidade em alguma “uniesquina” e vão trabalhar como vendedor em shopping center, tendo um trabalho baixo e um estilo de vida longe dos automóveis.
Melhor: eles são afastados de automóveis, família e qualquer outra coisa que exija um salário maior. Eles, sem saber, são condicionados a viver uma vida sem luxos, para não questionar estar trabalhando num domingo à noite, em um shopping do outro lado da cidade, por um salário pífio.
Pior: por serem maioria, acabam influenciando jovens com empregos mais humildes, porém mais remunerados, a se afastarem das coisas tradicionais do jovem, como o carro, para se sentirem acolhidos por essa galera.
Não podemos esquecer também da popularização do Uber e outros serviços de carona por aplicativo. Antigamente, se você ia para a balada de ônibus às 22h, tinha que voltar só de manhã, quando o transporte público voltava a funcionar. Quem tinha carro era rei: ia e voltava a hora que queria.
Agora é só chamar um Uber e ir para casa, sem gastar com estacionamento e combustível, e principalmente sem se preocupar em parar numa blitz e perder a habilitação por ter bebido uma cervejinha.
Agora sim, vamos ao ponto principal: ao meu ver, é a imensa lacuna que existe entre o carro dos nossos sonhos e as opções disponíveis, com a inflação no mercado de antigos tornando impossível realizarmos o sonho de infância de ter um Golf GTI MK3. Nos restou escolher entre andar num Kwid de plástico ou num Mobi “carrinho de circo”. Nos anos 90, era quase impossível ter uma Audi RS2, porém sabíamos que, 20 anos depois, poderíamos conseguir pelo menos uma S2 ou S4, como muita gente conseguiu no período das trevas do mercado automotivo dos anos 2010.
Hoje, fala para mim: qual a chance de sonhar com uma Audi RS6? Um carro de 1,5 milhão hoje custará 3 milhões daqui a alguns anos. Nosso país ficou indigesto demais para apaixonados por carros; estamos desalinhados, mirando para os Estados Unidos e indo em direção à Índia.
Por Flavio Cuter, conhecido nas redes como Flavio Garage.
Trabalho com carros desde que me conheço por gente, somando, por baixo, cerca de 30 anos sujando a mão de graxa e passando noites em claro tentando descobrir por que o Peugeot tem combustível, tem faísca e mesmo assim não pega.
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