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— Tá fazendo o quê aí, mano?
— Tô baixando uma parada aqui.

— Aplicativo?
— É.

— O que é que é isso aí, essas parada de pegar mulhé, tipo Tinder?
— Não!

— Deixa ver que po☠☠a é essa aí, carai.
— É o MitoApp.

— Quê?
— O MitoApp, mano. O aplicativo do militante virtual do Mito.

— Pra quê serve essa b☠sta?
— Você não viu que agora temos todos que nos unir para apoiar o Mito incondicionalmente?

— Ah, temos, é?
— Claro! Não tem nada que ficar com trelelê de princípios, não!

— Ah, não?
— Nem ficar cobrando do cara o que ele prometeu.

— Ah, não?
— Não! Tem que apoiar e acabou.

— Ah, tá.
— Por isso agora vamos ter uma militância organizada!

— Ah, entendi.
— E por isso vamos ter agora o MitoApp.

— Mano, tá aparecendo uma mensagem aí: “MitoApp solicita acesso a seus dados, incluindo fotos, documentos, contas de email e redes sociais”.
— Tá de boa.

— Como assim, você vai aceitar isso aí?
— Tá de boa, mano. Isso aqui é tecnologia chinesa de ultima geração. Inteligência artificial, manja?

— Ué, mas vocês não falavam que essa parada de tecnologia chinesa era truque pra espionar as pessoas?
— Não, não. Nada a ver isso aí.

— Mudaram de ideia, é?
— Mano, não atrapalha que agora eu tô fazendo o gadastro.

— Cadastro.
— Isso, o gadastro.

— É “CA”! CA-dastro.
— Isso, ué. Tô fazendo o gadastro.

— Tá bom, vai. Faz aí.
— Tô fazendo.

— Mano, isso aí tá pedindo nome, endereço, CPF, nome do pai e da mãe.
— Tá de boa.

— Até título de eleitor?
— Tá de boa, mano.

— Sei. Tecnologia chinesa.
— Pronto. Instalei o meu MitoApp!

— E comé que funciona isso aí?
— É assim, ó: você vai cumprindo tarefas e ganhando pontos.

— Sei. Tarefa, tipo o quê?
— Ah, por exemplo: toda vez que você vai na página de alguém e chama o cara de “isentão”, a inteligência artificial reconhece e você ganha cinco pontos.

— Aaaah, tá. Nossa, que bárbaro. Que mais?
— Toda vez que você xinga um jornalista, ganha dez pontos.

— Jornalista, é? Qualquer um?
— Não! Tem que ser jornalista da extrema-imprensa.

— E como é que faz pra saber se o cara é isso aí?
— Tem aqui a lista, ó.

— Nossa, é toda essa gente aí?
— É. E a lista é sempre atualizada, ó!

— Carai, entraram mais dez na lista!
— É.

— E agora mais vinte!
— É! Essa aqui é a lista que mais cresce.

— Tendi.
— Todos são inimigos do Mito!

— Todos, é?
— Claro, todos querem derrubar o Mito, por isso o criticam.

— Ah, é?
— Lógico, mano! Que outra razão alguém pode ter pra criticar o Mito?

— Tá. Tá bom. E o que mais isso aí faz?
— Se você levar block de político do centrão, ganha cinquenta pontos.

— Sei. E também deve ter uma lista, né?
— Sim.

— E sempre sendo atualizada também.
— Isso!

— E quê mais?
— Bom, você também ganha pontos se compartilhar as coisas certas.

— Tipo o quê?
— Esse site aqui, por exemplo.

— Sei. O Pano Livre. Tô ligado.
— Cada vez que você compartilha, ganha dez pontos.

— Sei.
— Pode ser no Twitter, Face, Insta ou grupo de zap.

— Esse outro aí também, do gordinho carola?
— Também dez pontos.

— E esse aqui, do gordinho que queima o churrasco, quantos pontos?
— Esse aí é cinco pontos, só.

— Sei. Esse aí tá meio desvalorizado. Tô ligado.
— Isso. Andou criticando o Mito. Onde já se viu?

— É. Daqui a pouco ele muda de lista, hein?
— É possível, mano. É possível.

— E esse recurso aqui, pra quê serve?
— Isso aí é pra você fazer sua lista negra.

— Como?
— Dos traidores da pátria, mano.

— Como assim, carai?
— Você coloca aqui quem você conhece que não apoia o Mito. Pode ser parente, amigo, colega do trampo.

— Sei.
— Aí você coloca aqui tudo o que você sabe da pessoa. Nome, endereço, telefone, firma onde trabalha.

— Tipo denúncia?
— É, mano. O Mito tem que saber com quem pode contar, manja?

— Sei, você preenche aí, e a inteligência artificial faz o resto.
— Isso. E pra cada um que você coloca na lista negra, ganha dez pontos.

— Sei.
— Mas se for jornalista, ganha vinte.

— Tendi.
— E se for gente com mais de vinte mil seguidores, ganha trinta pontos, mano! E pode mandar print pra provar.

— Bom, mas aí você faz o quê com esses pontos? Ganha alguma coisa?
— Claro, mano. Com 200 pontos você já ganha descontos em lojas, por exemplo.

— Quais lojas?
— Bom, por enquanto só tem aquelas lojas do véio careca, tá ligado?

— Hum, sei.
— Cinco por cento nas compras acima de mil reais.

— Só isso?
— Não, você também ganha um brinde!

— Ah, é?
— Uma exclusiva caneca com a foto do véio vestido de verde e amarelo!

— Nossa. Que incrível, hein?
— Mas se você juntar mais pontos, pode trocar por recompensas incríveis, mano.

— Tipo?
— Com mil pontos você ganha uma foto autografada pelo próprio Mito!

— Hum.
— Com cinco mil pontos, você ganha uma camiseta com a foto do Zero-Dois!

— Nossa. Esse prêmio é realmente legal, hein?
— E com dez mil então? Você pode ser convidado pra provar um hambúrguer feito pelo Zero-Três!

— O embaixador? Puxa, mas que incrível. E do Zero-Um, não tem prêmio?
— Ah, com três mil pontos você pode ser convidado para um café da manhã com o Zero-Um.

— Sério?
— É. Mas ninguém está querendo esse prêmio.

— Sei. O Zero-Um tá caidaço, né?
— É. Mas o que todo mundo sonha mesmo é um dia se tornar um militante Platinum!

— Platinum, é?
— Cem mil pontos, mano!

— E ganha o quê com tanto ponto, um ministério?
— Não, mano! Melhor.

— Ganha o quê, carai?
— Ganha um convite pra estar ao lado do Mito na LIVE DE QUINTA-FEIRA, MANOOO!

— Nossa, que incrível. Mas haja ponto, hein? Tem que xingar muito no Twitter.
— É, mas com fé em Deus, eu vou chegar lá, mano!

— Bacana, hein? E tudo isso aí, assim, pela internet.
— Pra falar a verdade, antes de baixar o MitoApp, tem que comparecer pessoalmente num posto de gadastramento pra receber uma senha.

— É “CA”. CA-dastramento.
— Isso, posto de gadastramento. Mas aí eu fui lá e já ganhei esse boné daora aqui, ó!

— Ganhou esse boné aí, é? Deixa ver. “Make Brazil Great Again“?
— Isso, daora, né?

— Mano! O que é isso na sua testa?
— O que, mano?

— Isso aí, carai!
— É um QR code .

— Eu tô vendo que é um QR code. Mas tá tatuado, po☠☠a!
— É que faz parte, mano.

— Faz parte do quê, carai?
— É a identificação de militante do Mito, mano. Aí eu vou poder circular nos ambientes, nas manifestações pró-Mito, etc.

— Sei.
— Nem preciso me identificar.

— Não tá exagerando isso aí, não, mano?
— Que nada, mano. Mó daora. Você também vai se gadastrar, né?

— Não, não, agora não.
— Mano, cê não é isentão, não, né?

— Não, é que eu tô com pressa, deixei a panela no fogo, tenho que ir.
— Mano, fala sério.

— Não, tô com pressa, valeu aí, mano.
— Volta aqui, mano.

— Abraço aí, valeu.
— Mano, eu vou te colocar na lista negra, hein?