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O Banco Central (BC) já tinha conhecimento, desde março de 2025, de graves irregularidades nas carteiras de crédito vendidas pelo Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), por R$ 12,2 bilhões, segundo depoimento prestado pelo diretor de Fiscalização da autoridade monetária, Ailton de Aquino, à Polícia Federal. As informações foram divulgadas nesta quarta-feira (28) pelo portal Metrópoles, com base nos depoimentos obtidos.
Apesar do conhecimento prévio das inconsistências, a liquidação extrajudicial do Banco Master só ocorreu quase oito meses depois, em 18 de novembro de 2025, mesmo dia em que a PF deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero. Aquino prestou depoimento no final de dezembro, mas não é investigado na operação. O caso tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF).
Compra e revenda de ativos suspeitos
Segundo as investigações, o dono do Master, Daniel Vorcaro, adquiriu R$ 6,7 bilhões em ativos da Tirreno e, posteriormente, os vendeu ao BRB por R$ 12,2 bilhões. A Polícia Federal apontou que a Tirreno nunca movimentou dinheiro e que o Master não pagou efetivamente pelos ativos antes da revenda.
Durante as oitivas, Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afirmaram que o Banco Central acompanhou toda a negociação. Questionado, Aquino confirmou que a autarquia monitorou de perto as operações após identificar problemas. Um questionamento formal feito pelo BC em março de 2025 levou o BRB a começar a reportar detalhadamente as carteiras da Tirreno, que até então não eram apresentadas com transparência adequada.
O diretor do BC afirmou ainda que a autoridade monetária acompanhou a tentativa de correção das irregularidades. Em 18 de junho de 2025, o BRB informou que iniciaria um processo de diligência para “internalizar ativos”, ou seja, buscar no próprio balanço do Master créditos que pudessem compensar a carteira problemática.
“No dia 18 de junho de 2025, um ofício direcionado a mim dizia que o BRB começaria a fazer um processo de diligência para internalizar os ativos. Ou seja, ele passou a buscar ativos dentro do balanço do Master frente ao problema”, explicou Aquino à PF.
Previsão de perdas bilionárias
O BC avaliou que o BRB precisaria constituir provisão de elevada monta para cobrir perdas com a negociação, devido à baixa qualidade dos ativos. Aquino estimou que o valor poderia chegar a R$ 5 bilhões, segundo apuração da Folha de S.Paulo, e que seriam necessários mais R$ 2,2 bilhões adicionais para completar a reserva.
Investigação de intermediários
A Operação Compliance Zero também identificou o empresário Henrique Peretto, apontado por Vorcaro como responsável por trazer o negócio das carteiras da Tirreno para o Master. Segundo Vorcaro, Peretto teria atuado como “avalista” da negociação e sido responsável por aumentar suspeitamente o capital social da Tirreno antes da venda dos ativos ao BRB.
Embora Peretto tenha sido preso preventivamente na primeira fase da operação, ele foi solto dias depois e ainda deve prestar novas oitivas para esclarecer sua participação nas operações.
Documentos e reuniões do BRB
Durante as buscas, a PF apreendeu uma agenda com anotações de uma reunião da cúpula do BRB em julho de 2025. Uma delas, atribuída a uma diretora, registrava que o então presidente do banco, Paulo Henrique Costa, afirmara que era necessário efetuar as compras, sob risco de falência do Master.
“Presidente afirmou, novamente, que faz-se necessário efetuar as compras de carteiras, afirmando que esses créditos foram verificados e que, se não houver, o Master vai quebrar”, dizia a anotação.
Em depoimento, Costa negou que a operação tivesse como objetivo salvar o Master, alegando que o banco agiu de forma diligente ao substituir ativos irregulares. “Se ia quebrar ou não ia quebrar, no final, seria problema dele”, afirmou.
Impacto e desdobramentos
O caso evidencia falhas graves de controle e supervisão em operações bilionárias envolvendo bancos privados e públicos. A investigação da PF segue em sigilo no STF e pode resultar em novas fases da Operação Compliance Zero, com possíveis responsabilizações de envolvidos.
O episódio também levanta questionamentos sobre a eficiência da regulação do mercado financeiro e sobre a necessidade de transparência em transações envolvendo recursos públicos, especialmente em bancos que recebem ativos e operações de grande vulto.