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O regime de Nicolás Maduro impediu nesta terça-feira a saída do cardeal venezuelano Baltazar Porras do país. A mais alta autoridade católica da Venezuela teve seu passaporte anulado no Aeroporto Internacional de Maiquetía quando se preparava para embarcar em compromissos eclesiásticos com destino à Colômbia e, em seguida, à Espanha.
O bloqueio migratório foi confirmado à agência EFE por fontes próximas ao prelado e por Óscar Murillo, coordenador geral da ONG de direitos humanos Provea. Devido à retenção do documento, o religioso foi obrigado a retornar à sua residência em Caracas.
Retenção Arbitrária no Aeroporto
O incidente ocorreu em um clima político de forte repressão que se intensificou após as eleições presidenciais de 28 de julho de 2024, nas quais Nicolás Maduro foi declarado vencedor em um resultado amplamente contestado por fraude. Murillo indicou que a retenção do passaporte faz parte de um esquema de violações sistemáticas a direitos fundamentais que o regime chavista consolidou após o pleito.
Em mensagem direcionada aos bispos venezuelanos, o Cardeal Porras detalhou o ocorrido:
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O oficial de controle migratório recolheu seu passaporte para “consultar” supostas irregularidades.
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Após longa espera, um superior informou que o documento “apresentava problemas” e que ele não poderia viajar.
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Porras foi constantemente escoltado por um soldado, inclusive ao banheiro, e mais tarde foi comunicado que não estava autorizado a embarcar no voo.
O cardeal denunciou que foi levado a uma área do aeroporto onde foi forçado a assinar documentos que alegavam um suposto “descumprimento de normas para viajar”. Ele tentou fotografar os papéis, mas teve a possibilidade negada sob ameaça de detenção. Porras também afirmou que não teve seu passaporte devolvido, o que o impediu de realizar qualquer reclamação formal no aeroporto.
Ao deixar a área pública do terminal, o cardeal ficou sem qualquer informação sobre o paradeiro de seu documento e sem orientação oficial. Apenas uma funcionária do setor de informações sugeriu que ele abandonasse o aeroporto e procurasse respostas na sede central do Saime, o órgão estatal que controla a emissão de passaportes.
Não É um Caso Isolado
O episódio com o Cardeal Porras não é um fato isolado e reflete uma tática recorrente do regime para coibir críticos. Em outubro, o religioso já havia denunciado que militares o impediram de viajar por terra para o povoado de Isnotú, no estado de Trujillo, onde participaria de uma missa pelo natalício de José Gregorio Hernández, o primeiro santo venezuelano. Na ocasião, ele foi cercado por efetivos armados após receber uma suposta notificação de suspensão de um voo que tinha programado originalmente.
O Cardeal Porras tem mantido, por anos, uma postura crítica em relação ao poder na Venezuela. Dias antes da canonização de Hernández, ele declarou em Roma que a situação do país era “moralmente inaceitável”, referindo-se à erosão das liberdades, ao aumento da pobreza e à militarização do governo. Suas declarações lhe renderam ataques constantes do oficialismo, tanto nos tempos de Hugo Chávez quanto de Maduro.
Coincidência com o Nobel da Paz
O incidente no Aeroporto de Maiquetía coincide com o dia em que o Comitê Norueguês entregou em Oslo o Prêmio Nobel da Paz a María Corina Machado, a líder opositora que permanece na clandestinidade há onze meses e não pôde comparecer à cerimônia. A filha de Machado, Ana Corina Sosa, confirmou que a líder política se deslocaria para a Noruega “em algumas horas”, em meio a fortes restrições e ameaças do regime venezuelano.
A trajetória de Baltazar Porras inclui cargos de relevância dentro da Igreja latino-americana: ele presidiu a Conferência Episcopal Venezuelana entre 1999 e 2006, foi vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano entre 2007 e 2011 e exerceu como administrador apostólico de Caracas.
O caso de Porras reitera os alertas sobre o uso do aparato migratório como instrumento de controle político. Organizações de direitos humanos afirmam que a restrição arbitrária de passaportes se tornou uma ferramenta recorrente para limitar a mobilidade de opositores, jornalistas, defensores e figuras com visibilidade pública, expondo a escalada repressiva do regime em um momento de crescente atenção internacional.