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O governo da França não conseguiu aprovar os Orçamentos Gerais de 2026 antes do final do ano, após o fracasso das últimas negociações parlamentares nesta sexta-feira (19), revelando a profunda fragmentação política do país. A situação representa um duro revés para o Executivo e gera um novo foco de instabilidade em um momento de elevada tensão institucional.
Diante do impasse, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu iniciou mecanismos para a prorrogação parcial do orçamento de 2025, uma medida temporária que busca dar mais margem de manobra ao governo e permitir a aprovação das novas contas nos primeiros meses de 2026. Embora o orçamento da Segurança Social tenha sido aprovado, Lecornu já havia alertado sobre a dificuldade de consensuar as contas gerais do Estado.
O principal obstáculo foi a comissão mista paritária, composta por sete senadores e sete deputados, responsável por harmonizar um texto comum entre o Senado — dominado pelo centro-direita — e a Assembleia Nacional, mais fragmentada e com forte presença da esquerda. A reunião durou apenas 35 minutos e terminou sem acordo, deixando o governo sem margem real para aprovar o orçamento antes do fim do ano.
Para tentar avançar, Lecornu convocou os principais líderes parlamentares para uma nova reunião na próxima segunda-feira. Segundo estimativas do Banco da França, cada dia sem orçamento aprovado agrava ainda mais a situação financeira do país.
O último precedente semelhante ocorreu em 2024, quando o então primeiro-ministro François Bayrou precisou prorrogar parcialmente as contas antes de conseguir a aprovação do orçamento de 2025 em fevereiro. Na época, a ministra da Fazenda, Amélie de Montchalin, afirmou que o atraso custou cerca de 12 bilhões de euros aos cofres públicos.
Lecornu criticou a “falta de vontade” de alguns grupos políticos e alertou que “serão os cidadãos que pagarão as consequências”.
Continuidade política em risco
A permanência de Lecornu no cargo agora é incerta. Sem orçamento aprovado, sua continuidade se complica e muitos analistas consideram que ele é o último recurso do presidente Emmanuel Macron diante da instabilidade política. Uma eventual queda de Lecornu poderia levar Macron a antecipar eleições, apenas um ano antes do fim de seu mandato, após o pleito já realizado em julho de 2024.
Enquanto isso, os blocos políticos se acusam mutuamente. Do Senado, a direita responsabilizou tanto o governo quanto a esquerda pelo bloqueio. O líder conservador Bruno Retailleau afirmou que o orçamento “estrelaria o país contra o muro da dívida” e pediu que Lecornu aprovasse as contas sem votação parlamentar — medida constitucional que, no entanto, implicaria uma moção de censura, mecanismo que já derrubou dois antecessores: Michel Barnier e François Bayrou.
A esquerda, por sua vez, responsabilizou a direita. O líder socialista Olivier Faure disse que “desde o primeiro momento fecharam a porta para qualquer acordo”, mesmo após garantir a aprovação do orçamento da Segurança Social mediante concessões, como a revogação da reforma da previdência de 2023.
O desafio de Lecornu é equilibrar demandas conflitantes: uma esquerda que busca aumento de impostos e reforço do gasto social e uma direita que defende austeridade e rejeita novas cargas fiscais. Além disso, surgem divisões dentro da própria coalizão macronista, entre quem prefere acordos com a esquerda ou com a direita.
Como pano de fundo, os dois grupos mais numerosos da Assembleia Nacional — a extrema-direita de Marine Le Pen e La France Insoumise de Jean-Luc Mélenchon — rejeitam qualquer compromisso e pedem novas eleições. As futuras negociações ocorrerão nos primeiros meses de 2026, em meio à campanha para as eleições municipais de março, cenário que deve reduzir ainda mais a margem de negociação política.