RFI – Quatro dias após as violentas explosões que deixaram 154 mortos no porto de Beirute, cerca de 60 pessoas seguem desaparecidas, segundo anúncio do Ministério da Saúde do Líbano neste sábado (8). Serviços de resgate libaneses, apoiados por socorristas franceses, alemães, russos e de outras nacionalidades continuam as buscas por sobreviventes no local do incidente. 

Segundo o governo libanês, restos mortais de 25 indivíduos ainda não foram identificados. Na sexta-feira (7), o Ministério da Saúde indicou que cerca de 120 pessoas, entre os mais de 5 mil feridos no incidente, estavam em estado crítico. 

As explosões ocorreram na terça-feira (4) no porto de Beirute, provocadas por um incêndio em um armazém que continha 2.700 toneladas de nitrato de amônio. Segundo o primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, a substância altamente inflamável estava guardada há seis anos “sem medidas de precaução”.

Já o presidente libanês, Michel Aoun, foi o primeiro dirigente a mencionar uma causa externa. “É possível que isto tenha sido causado por negligência ou por uma ação exterior, com um míssil ou uma bomba”, afirmou na sexta-feira à imprensa. Ele também rejeitou a possibilidade que uma investigação internacional seja realizada sobre o incidente que poderia, segundo ele, “diluir a verdade”.

O movimento xiita libanês Hezbollah negou “categoricamente” ter um “armazém de armas” no porto da cidade, após acusações que têm circulado nos meios de comunicação e na opinião pública libanesa. “Nem armazém de armas, nem armazém de mísseis (…) Nenhuma bomba, nenhum projétil, nem nitrato” de amônio, insistiu o líder do grupo, Hassan Nasrallah.

 

População culpa governo

A tragédia aumentou a revolta da população contra o governo, que vinha de manifestando desde outubro de 2019 contra a corrupção da classe política. Na quinta-feira (6), dezenas de pessoas saíram às ruas de Beirute para denunciar a incompetência dos líderes. Um novo protesto está programado para este sábado.

Autoridades portuárias, serviços de alfândega e alguns serviços de segurança reconheceram que sabiam que havia produtos químicos perigosos armazenados no porto da capital libanesa, mas responsabilizaram uns aos outros. Cerca de vinte funcionários do porto e da alfândega estão sendo interrogados, segundo fontes judiciais e de segurança. Entre eles, o diretor-geral da alfândega, Badri Daher, e o presidente do conselho de administração do porto, Hassan Koraytem.

A situação agrava ainda mais a crise econômica, financeira e política no Líbano. No início de julho, a alta comissária dos Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, alertou que os cidadãos mais vulneráveis “correm o risco de morrer de fome”. A taxa de desemprego chegou a 30%. Em abril, cerca de 50% da população libanesa estava na linha de pobreza; mais de 20% vivem abaixo deste nível. 

Ajuda internacional 

Co-organizada pela ONU e a França, uma videoconferência para doações ao Líbano é organizada na tarde deste sábado com o objetivo de mobilizar uma ajuda humanitária de emergência ao país. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou na sexta-feira (7) que participará da iniciativa, bem como várias instituições europeias. Já a Áustria anunciou que vai desbloquear € 1 milhão a Beirute através do movimento internacional organizado pela Cruz Vermelha. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu US$ 15 milhões para cobrir as necessidades mais imediatas em Beirute. As Nações Unidas calculam que até 10.000 crianças estão entre as 300.000 pessoas que ficaram desabrigadas. 

Voos levando alimentos e medicamentos do Irã, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos aterrissaram no Líbano na sexta-feira, seguindo os passos de países como França, Kuwait, Catar e Rússia.