A renomada revista americana especializada em medicina, JAMA NETWORK, fez uma reportagem especial sobre o coronavírus na Itália, acompanhe.

Apenas dois casos de Covid-19 foram diagnosticados na Itália, no começo de fevereiro de 2020, e ambos relacionados a pessoas que haviam viajado à China. Ao final do mesmo mês, um caso grave de pneumonia ligada ao SARS foi diagnosticado em um homem, do norte da Lombardia, de 30 anos de idade que não havia saído do país. Em duas semanas outros casos SARS surgiram na região, e em boa parte, casos graves. Com o aumento no número de infectados e a velocidade da propagação, especulou-se que a doença estava na região desde janeiro.

Simultaneamente, outra leva de contágio começara em Veneto, região vizinha de Lombardia. Desde então o número de enfermos pelo coronavírus aumentou rapidamente em toda a nação (Com foco na região norte, mas todas já estavam afetadas). Depois da China, a Itália é o país com maior número de infectados e também possui alta contagem de fatalidades. Está é uma análise social, política e médica destes números.

Sistema de vigilância

Durante o pico da pandemia da doença no país, em março de 2020, o Instituto Italiano De Saúde (Istituto Superiore di Sanità [ISS]) lançou um sistema de vigilância para coletar informações do Covid-19 por toda nação. Dados foram coletados de todas regiões, inclusive das províncias independentes de Bozen e Trento. Os casos da doença foram identificados por uma reação da transcriptase reversa, seguida de reação em cadeia da polimerase (RT-CPR), testando casos de doenças respiratórias graves e agudas. O índice de fatalidade foi definido pelo número de mortes de infectados, dividido pelo número total de infectados. O índice de fatalidade de casos confirmados de coronavírus na Itália é de 7,2%, significando 1625 mortes para 22 512 casos.

Índice e sociedade

O índice é mais alto que os de outros países que lutam contra a pandemia. Isso pode ser explicado por alguns fatores.

Fatalidade e Idade da população

As características demográficas da população italiana são diferentes das de outros países que possuem o surto. Em 2019, cerca de 23% da população italiana tinha mais de 65 anos de idade. O Covid-19 é mais letal em humanos de idade avançada, e isso explica, em partes, a alta taxa de fatalidade na população italiana. O gráfico abaixo demonstra a faixa etária (Age groups), número de mortes (No. Of deaths) e Índice de fatalidade (Case-fatality rate) comparando os períodos de
pico da doença na Itália e China.

O índice de fatalidade italiano (7,2%) é consideravelmente maior que o chinês (2,3%). Mas quando comparados por faixa etária, o índice de ambos, até os 69 anos é quase idêntico, mas a Itália tem muito mais mortes nas próximas faixas, dentre a população mais velha, de acima de 70 e, particularmente, acima de 80 anos.

É difícil comparar estes números finais, pois o percentual de pessoas acima de 70 anos na Itália representa 37,6% da população, enquanto na China, o mesmo grupo representa apenas 11,3%.

Diagnose e identificação de mortes causadas pelo vírus

Na Itália, o número de mortes pelo coronavírus é definido pelo teste, antes citado (RT-CPR), independentemente de outras doenças que os pacientes tinham ou vieram a ter e possam ter resultado em suas mortes. Esse método foi escolhido pelo critério de dificuldade em definição da causa da morte, diante à pandemia do Covid-19.

Essa escolha de definição de contagem do número de mortes por coronavírus pode ter resultado em uma superestimação do índice de fatalidade. Um grupo de 335 pacientes italianos que morreram tiveram seus históricos médicos estudados e analisados desvendando os reais números dos que apenas contraíram o vírus.

Neste grupo, 117 pacientes (30%) tinham doenças cardíacas, 126 (35,5%) diabetes, 72 (20,3%) algum tipo de câncer, 87 (24,5%) fibrilação atrial, 24 (6,8%) demência e 34 (9,6%) já haviam tido acidentes vasculares encefálicos (derrames).

Um total de 3 pacientes mortos (0,8%) não tinham nenhum tipo de doença antes de contraírem o coronavírus, 89 (25,1%) tinham algum tipo de doença antes do corona, 91 (25,6%) duas doenças antes do corona e 172 (48,5%) tinham 3 ou mais doenças antes de contraírem o coronavírus.

Mortes relacionadas ao Covid-19 até agora, em relatórios internacionais, não mostram com clareza. Para mais precisão nas próximas divulgações de dados o ISS está fazendo a análise de todos históricos médicos de pacientes que testaram positivo para o coronavírus.

 

Formato e método dos testes

Depois de uma extensiva série de testes em pacientes (incluindo assintomáticos), no dia 25 de fevereiro o Ministro da Saúde da Itália, Roberto Speranza, exigiu testes mais eficazes. A recomendação priorizou cidadãos que haviam maior risco de vida, ou já possuíam outras doenças e precisavam de hospitalização urgente. Este tipo de teste resultou em um resultado de casos positivos maior, pois as pessoas assintomáticas ou com poucos sintomas deixaram de ser examinadas, pois, corriam menos riscos, e muitos dos novos diagnosticados já estavam com o sistema imunológico fragilizado e corriam maiores riscos de fatalidade.

Em outros países, como na Coréia do Sul, os assintomáticos fazem parte do número total de casos do Covid-19, mas, já que não correm tanto risco de vida, o Índice de fatalidade sul-coreano (1%) é muito menor do que o italiano (7,2%).

Conclusão

O número de diagnosticados e fatalidades na Itália podem ser explicados pelas informações demográficas do país, já que sua população é mais velha, em comparação com outras nações que combatem a pandemia. Além disso, esclareceu-se que muitos dos pacientes que tiveram as mortes confirmadas, já possuíam outras diversas complicações de saúde e alguns, doenças graves.

Para entendermos a letalidade do Covid-19 precisamos de um relatório transparente e mais detalhado, não só da Itália, mas, de todos os países afetados no mundo. Só assim, então, entenderemos a periculosidade da situação e descobriremos como enfrentá-la.