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Um acidente aéreo no principal aeroporto da Venezuela voltou a colocar sob os holofotes o empresário panamenho Ramón Carretero Napolitano, conhecido por seus estreitos vínculos com o chavismo. Na quarta-feira, um jato executivo Learjet 55, matrícula YV-3440, caiu pouco depois de decolar do Aeroporto Internacional Simón Bolívar de Maiquetía, no estado de La Guaira. Entre os passageiros estava Carretero, cuja fortuna cresceu à sombra do regime de Nicolás Maduro.
De acordo com o Instituto Nacional de Aeronáutica Civil (INAC), o acidente ocorreu às 12h52 e obrigou a ativação de protocolos de emergência, interrompendo temporariamente as operações em Maiquetía e provocando atrasos e desvios em voos internacionais. Duas pessoas foram resgatadas com vida e levadas a hospitais, onde permanecem em estado estável. As autoridades ainda não divulgaram um balanço definitivo de vítimas.
Imagens registradas por passageiros e funcionários do terminal mostraram uma coluna de fumaça saindo da pista após o impacto. O INAC anunciou a abertura de uma Junta de Investigação de Acidentes para apurar as causas, ainda desconhecidas. Registros do portal FlightAware indicam que a aeronave havia realizado voos recentes para Cuba e Panamá.
#LaGuaira Hace minutos una aeronave Learjet 55, se estrelló en el aeropuerto de Maiquetia. Información preliminar indica que el hecho ocurrió cuando iba a aterrizar.
Bomberos aeronáuticos y autoridades en el sitio
Se espera información oficial por parte del INAC y organismos… pic.twitter.com/CFnx1by4p7
— Roman Camacho (@rcamachovzla) September 24, 2025
Trajetória de negócios bilionários
A presença de Carretero no avião deu contornos políticos a um acidente que, em outras circunstâncias, poderia se restringir às páginas policiais. Empresário com atuação em Panamá e Cuba, ele passou a ser contratado pelo Estado venezuelano a partir de 2013, recebendo adjudicações milionárias para a construção de ginásios, um estádio de beisebol, um centro de convenções e a reforma de hotéis na costa caribenha.
Segundo investigação do Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP) e do portal Armando.Info, as empresas de Carretero movimentaram cerca de US$ 769 milhões em projetos e fornecimentos. Documentos obtidos pela apuração mostram ainda repasses a empresas ligadas a Juan Carlos López Tovar — então companheiro de Iriamni Malpica Flores, sobrinha da primeira-dama Cilia Flores.
Em 2014, sociedades de Carretero transferiram ao menos US$ 5,8 milhões para empresas de López Tovar. Além das transações financeiras, ambos compartilharam voos em jatos privados e criaram companhias no Panamá, atuando em setores como imóveis e aluguel de aeronaves.
Rede de influência
Os contratos de Carretero foram intermediados pela Fundação Pro-Patria 2000, vinculada diretamente à Presidência e controlada por familiares de Cilia Flores. Entre 2013 e 2014, a empresa Lanvicorp, filial dos Carretero em Caracas, assinou três contratos com a fundação, somando aproximadamente US$ 700 milhões. Nesse período, recebeu pelo menos US$ 138 milhões em repasses do Fundo de Desenvolvimento Nacional (Fonden).
Parte dos recursos foi destinada a contas de López Tovar e de sua esposa no Panamá. Bancos como o Allbank identificaram movimentações suspeitas, cheques de valores elevados e cartas de recomendação assinadas por Carretero para facilitar empréstimos imobiliários da família em edifícios de luxo da Cidade do Panamá. Apesar disso, as contas permaneceram ativas até 2015.
Empresas criadas em conjunto, como a Grupo Carrelop — união dos sobrenomes Carretero e López —, consolidaram essa parceria. Mesmo com investigações no Panamá e monitoramento internacional, os contratos na Venezuela continuaram a ser liberados nos anos seguintes.
Expansão e ostentação
Entre 2016 e 2018, as companhias de Carretero ampliaram negócios com a estatal Corpovex, incluindo contratos de US$ 4,5 milhões para importação de brinquedos e outros US$ 37 milhões relacionados ao sistema Carnet de la Patria, mecanismo de controle social do chavismo. Também participaram de operações envolvendo eletrodomésticos e pneus, avaliadas em dezenas de milhões de euros e dólares.
Enquanto isso, López Tovar e sua esposa ostentavam uma vida de luxo. Registros migratórios mostram que, entre 2014 e 2023, realizaram mais de 180 voos privados para destinos como Estados Unidos, Alemanha, Costa Rica e Caribe. A dupla adquiriu imóveis avaliados em mais de US$ 3 milhões e gastou dezenas de milhares em grifes como Louis Vuitton, Gucci e Hermès, conforme extratos bancários analisados pela investigação.
Contraste com a crise
A opulência dessa rede empresarial contrasta com a crise humanitária enfrentada pelos venezuelanos, marcada por desabastecimento, inflação e precariedade. Nesse cenário, Ramón Carretero Napolitano consolidou-se como um dos símbolos da economia política do chavismo.
O acidente em Maiquetía reacende agora o debate sobre sua trajetória. Até o momento, nem as autoridades venezuelanas nem o governo do Panamá se pronunciaram oficialmente sobre a identidade dos passageiros ou seu estado de saúde. A investigação técnica está apenas começando, mas a figura de Carretero permanece como uma sombra sobre os bastidores financeiros do regime bolivariano.
