SaĂșde

Anvisa autoriza pesquisa em pacientes com leucemia linfoide aguda B

Foto: Marcelo Camargo/AgĂȘncia Brasil

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A AgĂȘncia Nacional de VigilĂąncia SanitĂĄria (Anvisa) autorizou a Fundação Hemocentro de RibeirĂŁo Preto (Fundndherp), em parceria com o Instituto Butantan, a iniciar ensaio clĂ­nico no Brasil com um medicamento a base de cĂ©lulas CAR-T em pacientes com leucemia linfoide aguda B e linfoma nĂŁo Hodgkin B, recidivados e refratĂĄrios (ou seja, em casos de reaparecimento da doença ou de resistĂȘncia ao tratamento padrĂŁo).

Os estudos estão em fase clínica inicial, quando o objetivo é avaliar a segurança e a eficåcia. 

A aprovação do ensaio clĂ­nico com as cĂ©lulas geneticamente modificadas Ă© parte de um projeto inovador de colaboração regulatĂłria entre a Anvisa e pesquisadores e desenvolvedores brasileiros visando incentivar o desenvolvimento de produtos de terapias avançadas disponĂ­veis no Sistema Único de SaĂșde (SUS).

Segundo a Anvisa, o tratamento consiste na reprogramação das prĂłprias cĂ©lulas do paciente para atacar e destruir o cĂąncer de forma precisa. Em laboratĂłrio, Ă© feita a transferĂȘncia de genes de interesse para as cĂ©lulas de defesa (linfĂłcito T) do paciente.   

Nessa forma de tratamento, as cĂ©lulas T do paciente (um tipo de cĂ©lula do sistema imunolĂłgico) sĂŁo alteradas em laboratĂłrio para reconhecer e atacar as cĂ©lulas cancerĂ­genas ou tumorais. O termo CAR refere-se a um receptor de antĂ­geno quimĂ©rico (chimeric antigen receptor, em inglĂȘs). O procedimento jĂĄ Ă© adotado nos Estados Unidos e em outros paĂ­ses para tratar linfomas e leucemias avançadas como Ășltimo recurso. 

“Em janeiro deste ano, a Fundherp e o Instituto Butantan foram selecionados atravĂ©s do Edital de Chamamento 17/2022. Isso deu inĂ­cio a um suporte regulatĂłrio intensificado para aprimorar e acelerar a fase de busca de dados prĂ©-clĂ­nicos para inĂ­cio da fase de desenvolvimento clĂ­nico do produto. Foram 104 dias de avaliação documental realizada pela Anvisa e 144 dias de respostas Ă s exigĂȘncias trabalhadas pela Fundherp”, explicou a Anvisa. 

RevisÔes frequentes

A partir de agora, o estudo serå acompanhado com revisÔes frequentes dos dados e informaçÔes da pesquisa, com açÔes planejadas até dezembro de 2024, para monitorar de perto o desenvolvimento do produto.

Se os resultados forem bons, o objetivo é registrar o produto rapidamente para que as pessoas tenham acesso a uma opção de tratamento seguro, eficaz e de alta qualidade disponível no SUS. 

Segundo a Anvisa, desde 2020, a agĂȘncia registrou trĂȘs produtos de terapia gĂȘnica, do tipo CAR-T, para tratamento de leucemias, linfomas e mielomas, e dois produtos de terapia gĂȘnica para doenças genĂ©ticas raras, desenvolvidos por empresas farmacĂȘuticas biotecnolĂłgicas internacionais. No momento, mais de 40 ensaios clĂ­nicos com produtos de terapia avançada (PTAs) experimentais estĂŁo acontecendo no paĂ­s, apĂłs a aprovação da Anvisa. 

Tratamento em Ribeirão Preto 

Os primeiros estudos no Brasil começaram entre pacientes em tratamento no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, no interior paulista, em 2019.

Nos Estados Unidos, o FDA (agĂȘncia reguladora de saĂșde) fez a liberação para uso da indĂșstria farmacĂȘutica em 2017. No Brasil, o uso da indĂșstria farmacĂȘutica começou em janeiro deste ano.

Para quem pode pagar o tratamento, o custo é de cerca de R$ 2 milhÔes. Como a terapia celular ainda estava em fase experimental no Brasil, os pacientes foram tratados de forma compassiva, ou seja, por decisão médica, quando o cùncer estå em estågio avançado e não hå alternativas de terapia. 

No programa de tratamento, um dos pacientes estava com linfoma nĂŁo-Hodgkin. “Cerca de um mĂȘs apĂłs a produção dessas cĂ©lulas, podemos infundi-las no sangue. EntĂŁo, as cĂ©lulas vĂŁo se direcionar contra as cĂ©lulas do tumor, porque estĂŁo capacitadas a fazer isso, para poder combater os tumores, no caso desse paciente, o linfoma. Ele teve uma remissĂŁo completa um mĂȘs depois da injeção dessas cĂ©lulas”, explicou o professor de hematologia, hemoterapia e terapia celular da Faculdade de Medicina da Universidade de SĂŁo Paulo (USP), Vanderson Rocha, tambĂ©m coordenador nacional de terapia celular da rede D’Or.  

Segundo Rocha, o primeiro caso de remissão da doença por meio dessa técnica no país ocorreu em 2019, mas o paciente morreu por outra causa dois meses depois do tratamento.

“O paciente obteve uma remissĂŁo parcial, mas pode ser que, naquele momento, ainda tivesse tempo de responder [totalmente ao tratamento]”, detalha o mĂ©dico. 

Em 2019, a reportagem da AgĂȘncia Brasil contou a histĂłria do aposentado Vamberto Castro, que, aos 62 anos, estava com linfoma em estado grave e sem resposta a tratamentos convencionais.

Cerca de 20 dias apĂłs o inĂ­cio do tratamento, a resposta de saĂșde do paciente foi promissora: os exames passaram a mostrar que as cĂ©lulas cancerĂ­genas desapareceram. No fim do mesmo ano, no entanto, Vamberto morreu em decorrĂȘncia de um acidente domĂ©stico, nĂŁo relacionado Ă  doença.  

Até maio de 2023, 14 pacientes haviam sido tratados com o CAR-T Cell. Todos os pacientes tiveram remissão de pelo menos 60% dos tumores e todos se trataram na rede do SUS.

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