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A Autistas Brasil encaminhou ao Ministério do Turismo um ofício com críticas técnicas e propostas de cooperação para a próxima edição do “Guia para Atender Bem Turistas Neurodivergentes”, publicado recentemente pelo governo federal em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). O documento foi assinado pelo presidente da organização, o pesquisador e doutor em Educação pela Unicamp, Guilherme de Almeida.
Lançado durante o 10º Salão do Turismo, em Fortaleza, o guia é apontado pelo governo federal como a primeira iniciativa oficial voltada especificamente ao atendimento de turistas neurodivergentes no Brasil.
O que a Autistas Brasil reconhece
A organização reconhece o caráter pioneiro da iniciativa, mas afirma que o material apresenta contradições conceituais e falhas de governança relacionadas à ausência de participação efetiva de pessoas autistas e organizações do movimento na elaboração do conteúdo.
Guilherme de Almeida afirma: “O Guia tem méritos importantes que precisam ser reconhecidos publicamente. Ele desloca o eixo da acessibilidade para neurodivergentes do plano estritamente físico para as dimensões sensorial, comunicacional e atitudinal, e nomeia com clareza o capacitismo no atendimento turístico – algo raramente feito por documentos oficiais do Estado brasileiro.”
Crítica ao símbolo do quebra-cabeça
Entre os principais pontos levantados está a utilização do símbolo do quebra-cabeça como representação do autismo no documento oficial. Segundo a organização, o símbolo é rejeitado há anos por parte significativa da comunidade autista por remeter à ideia de “peça faltante” ou de um “mistério” a ser resolvido.
A Autistas Brasil defende o uso do símbolo do infinito – em arco-íris para representar a neurodiversidade e em dourado para o autismo.
“Reproduzir o quebra-cabeça em documento oficial do Estado brasileiro, em 2026, é tecnicamente datado e politicamente desalinhado com o próprio movimento que o Guia pretende apoiar”, afirma Almeida.
Contradição conceitual
A organização também questiona o que considera uma contradição conceitual do material. Embora o glossário do guia apresente inicialmente uma visão afirmativa da neurodiversidade, o texto volta a definir o autismo a partir da lógica de “déficits” prevista na Classificação Internacional de Doenças (CID-11).
“Não se sustenta, num mesmo documento, a afirmação da neurodiversidade como diversidade legítima e a manutenção do vocabulário do transtorno e do déficit”, aponta o documento.
“Nada sobre nós sem nós”
Outro ponto central é a crítica à ausência de participação direta de pessoas autistas na coordenação técnica do guia. Segundo a Autistas Brasil, a ficha técnica do documento não apresenta organizações autísticas, representantes do movimento da neurodiversidade ou pessoas com deficiência entre os responsáveis pela elaboração e revisão do material.
“A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência tem status constitucional no Brasil e consagra o princípio do protagonismo direto na formulação de políticas públicas. Validação por grupo focal não substitui coautoria. Esse é um ponto que organiza historicamente a luta do movimento: nada sobre nós sem nós”, afirma Almeida.
Outras lacunas apontadas
O ofício também aponta:
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Ausência de recomendações específicas para diferentes perfis neurodivergentes
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Falta de articulação com o Cadastur e com legislações relacionadas à acessibilidade
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Diagramação considerada inadequada para pessoas com dislexia
Propostas de cooperação
A Autistas Brasil propôs cinco linhas de cooperação institucional para a próxima edição do guia:
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Participação da entidade em regime de coautoria no grupo de trabalho de revisão
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Criação de um comitê consultivo permanente ligado à Secretaria Nacional de Políticas de Turismo
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Suporte técnico para capacitação de profissionais do setor turístico
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Disponibilização do instrumento “Triagem Pedagógica de Barreiras” (desenvolvido pela organização)
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Abertura dos microdados da pesquisa utilizada na elaboração do guia para análise independente
