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Cientistas descobrem nova espécie de perereca no Brasil

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Foi ouvindo o som que saĂ­a de bromĂ©lias localizadas a 20 metros de altura, em ĂĄrvores remanescentes da Mata AtlĂąntica baiana, que o professor Mirco SolĂ©, do Departamento de CiĂȘncias BiolĂłgicas da Universidade Estadual de Santa Cruz (BA), teve seu primeiro contato com aquilo que, 13 anos depois, seria mais uma de suas seis descobertas cientĂ­ficas: a Phyllodytes magnus, uma nova espĂ©cie das chamadas pererequinhas-de-bromĂ©lia.

Com isso, jå estão contabilizadas 14 espécies diferentes desse pequeno anfíbio que nasce, cresce, reproduz e morre em meio às bromélias.

Pesquisas jĂĄ comprovaram que pelo menos uma dessas espĂ©cies tem como uma de suas fontes de alimento larvas de mosquitos que transmitem doenças como dengue, zika ou chikungunya. “De fato as pererequinhas-de-bromĂ©lia desempenham função ecolĂłgica que beneficia o ser humano”, disse o professor.

pererequinha-de-bromélia

“Dentre elas [as 14 espĂ©cies jĂĄ descobertas] tĂȘm uma que jĂĄ foi estudada, e da qual sabemos que os girinos conseguem se alimentar de larvas de mosquitos. Ela atua como controlador biolĂłgico de larvas de mosquitos que transmitem dengue, zika ou chikungunya, que se desenvolvem nas axilas de bromĂ©lias.”

DifĂ­cil acesso

Uma das primeiras dificuldades que os pesquisadores tiveram para avançar os estudos foi o acesso à copa das årvores, localizadas 20 metros acima do solo, onde ficam as bromélias que servem de habitat para essa espécie, que chega a medir 4 cm.

“Isso foi por volta de 2007, em Uruçica [municĂ­pio a cerca de 40km de IlhĂ©us], quando fazĂ­amos o inventĂĄrio dos anfĂ­bios a pedido da dona de uma RPPN [Reserva Particular do PatrimĂŽnio Natural, um tipo de unidade de conservação particular]. Foi ali que, pela primeira vez, ouvimos o canto diferenciado dessa perereca que tem sua vida intimamente ligada Ă s bromĂ©lias”, lembrou o pesquisador.

O canto citado por SolĂ© Ă© emitido pelos machos da espĂ©cie como estratĂ©gia de atração de fĂȘmeas Ă  sua bromĂ©lia.

Nova espĂ©cie para a ciĂȘncia

Posteriormente, foram encontrados outros indivĂ­duos da espĂ©cie na Estação EcolĂłgica Estadual de Wenceslau GuimarĂŁes e no Parque Estadual da Serra do Conduru, ambos na Bahia. “Começamos entĂŁo um estudo de taxonomia integrativa no qual analisamos a morfologia externa, genĂ©tica, o canto e atĂ© a morfologia interna dos animais. Chegamos Ă  conclusĂŁo de que se tratava de uma espĂ©cie nova para a ciĂȘncia. Batizamos de Phyllodytes magnus”, disse o professor SolĂ©, referindo-se aos termos que significam quem entra nas folhas e grande, respectivamente.

“Parece um nome muito pretensioso para uma pererequinha de apenas quatro centĂ­metros. PorĂ©m, se levarmos em conta que a maioria das 14 espĂ©cies do grupo nĂŁo alcança trĂȘs centĂ­metros, o magnus é um verdadeiro gigante no reino dos anĂ”es”, destacou o professor do Programa de PĂłs-Graduação em Zoologia da UESC, Iuri Ribeiro Dias.

As pererequinhas-de-bromélia são animais que se encontram unicamente no Brasil. Com exceção de uma espécie que chega até o Rio do Janeiro, todas as demais são essencialmente nordestinas.

Descrição

O estudo identificou um distanciamento genĂ©tico superior a 6% em relação a outras pererequinhas-de-bromĂ©lia. AlĂ©m do tamanho, a Phyllodytes magnus se distingue por possuir tom amarelo pĂĄlido, um canto diferente, pele granulosa na regiĂŁo dorsal e pela ausĂȘncia de uma listra escura na lateral do corpo, comum a outras espĂ©cies do grupo.

“Descrever espĂ©cies novas Ă© o que chamamos de ciĂȘncia bĂĄsica. É sĂł a partir da descrição cientĂ­fica que podemos investir em outros tipos de pesquisas mais aplicadas. As pererequinhas-de-bromĂ©lia se alimentam, sobretudo, de formigas. Formigas dispĂ”em de um verdadeiro arsenal quĂ­mico de defesa, como, por exemplo, o ĂĄcido fĂłrmico. As pererecas podem ou eliminar essas substĂąncias ou bioacumular elas, a ponto de, inclusive, usĂĄ-las para sua prĂłpria defesa”, informou SolĂ©.

“Essas substĂąncias podem ser pesquisadas e, quem sabe, serem futuramente utilizadas para desenvolver remĂ©dios”, disse o professor de nacionalidades alemĂŁ e espanhola, que chegou ao Brasil em 1998.

Novos estudos

Com a descoberta, novas perguntas surgem sobre a espĂ©cie e, com isso, a expectativa Ă© de que novos estudos sejam implementados. “Primeiramente queremos entender se o que temos descoberto para uma das espĂ©cies de pererecas-de-bromĂ©lias – o fato de elas conseguirem se alimentar de larvas de mosquito – Ă© uma peculiaridade dessa Ășnica espĂ©cie ou se Ă© um padrĂŁo para todas as espĂ©cies do gĂȘnero”, afirmou o pesquisador.

Segundo ele, caso se confirme que todas as espĂ©cies atuam como biocontroladores de mosquitos “ficarĂĄ mais fĂĄcil explicar a importĂąncia de preservĂĄ-las para a sociedade.” Para isso serĂŁo feitos experimentos no LaboratĂłrio de Herpetologia Tropical da UESC, informou.

“Acreditamos que a nova espĂ©cie possa ocorrer em outros locais de Mata AtlĂąntica da Bahia. PorĂ©m, como os Ășltimos fragmentos dessa floresta estĂŁo sendo destruĂ­dos a um ritmo acelerado, a sobrevivĂȘncia da espĂ©cie pode estar comprometida”, complementou.

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