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Aave v4 — arquitetura, liquidações, cross-chain e o conflito em torno da DAO

(Pixabay)

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Para entender este artigo, é recomendável conhecer a história do desenvolvimento do Aave, um dos protocolos de empréstimo mais relevantes do ecossistema DeFi.

Aave v4: o que muda na arquitetura

Vale notar que o Aave v4 ainda não foi lançado em mainnet no momento da escrita deste artigo, mas já passou por três auditorias e foi aprovado pela comunidade.

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A quarta versão do Aave traz várias melhorias de arquitetura, sendo a principal a transição do modelo market-per-pool para a arquitetura Hub and Spoke (hub e spokes).

O que isso significa na prática? Vamos analisar a interface do Aave v3.

Na rede Ethereum, além do mercado principal, existem também os mercados Prime, Horizon e EtherFi. Embora estejam na mesma rede, esses mercados operam com pools de liquidez separados. Na prática, o E-mode e o Isolation mode também funcionam como mercados separados, com liquidez isolada.

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Na v4, a proposta é criar um hub de liquidez em cada blockchain, concentrando a liquidez da rede em um único ponto. Os spokes correspondem aos diferentes mercados — como o mercado principal, Prime, Horizon ou E-mode — para os quais a liquidez será alocada e rebalanceada conforme a demanda. Cada mercado poderá ter suas próprias condições de rentabilidade, níveis de risco e outros parâmetros.

Empréstimos cross-chain

Está prevista a implementação gradual de empréstimos cross-chain no protocolo. Os usuários poderão usar ativos depositados em uma rede como garantia para tomar empréstimos em outra. Para isso, o Aave utilizará o protocolo de mensagens CCIP da Chainlink, o que abre novas possibilidades, mas também introduz novos vetores de risco.

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Novo mecanismo de liquidação

O mecanismo de liquidação também foi reformulado. Quando o health factor cai abaixo de 1, os liquidantes não quitam mais 50–100% do empréstimo para receber o colateral com um bônus fixo. Em vez disso, eles restauram o HF apenas até um valor-alvo predefinido. A recompensa passa a funcionar como um leilão holandês: quanto mais o HF caiu abaixo de 1, maior o bônus de liquidação. Posições pequenas ainda serão liquidadas integralmente, como medida de proteção contra dívidas incobráveis.

Prêmio de risco e módulo de reinvestimento

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Os credores passarão a receber taxas diferenciadas com base no tipo de garantia oferecida — trata-se de um prêmio pelo risco assumido. Além disso, será introduzido um “módulo de reinvestimento”, que permitirá realocar capital ocioso para estratégias mais rentáveis.

Todas essas mudanças têm como objetivo aumentar a eficiência de capital e melhorar a liquidez do protocolo.

O conflito na DAO: o que acontece com a v3 e com o token?

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O papel central do token AAVE é a governança do protocolo via DAO. A Aave DAO é geralmente considerada uma das DAOs mais maduras do setor — mas agora parece que o núcleo de desenvolvimento está se fragmentando.

Em fevereiro de 2026, a Aave Labs (doravante Labs) apresentou uma proposta à DAO solicitando US$ 51 milhões em troca da manutenção da v4, novas parcerias e o direcionamento de toda a receita do ecossistema Aave para a DAO.

Mas isso já não era assim? As taxas do protocolo sempre foram para a DAO, assim como as comissões por integrações. A proposta da Labs também inclui o lançamento de novos produtos:

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  • Aplicativo mobile
  • Cartão Aave
  • Nova interface para o Aave v4
  • Aave Kit para fintechs e institucionais
  • Aave Horizon — mercado de ativos RWA e serviços institucionais

O problema é que a Labs também quer encerrar o Aave v3, chamando-o de obsoleto — mesmo ele tendo gerado cerca de US$ 180 milhões no total, dos quais US$ 140 milhões apenas em 2025.

Quem realmente construiu o protocolo

A questão central é que a Labs praticamente parou de contribuir para o desenvolvimento do protocolo a partir da versão 3.1. Isso significa que 98% da receita da DAO foi gerada por prestadores de serviços independentes: BGD Labs, TokenLogic, ACI, Chaos Labs e LlamaRisk.

A BGD Labs, por exemplo, desenvolveu o Liquid E-mode, que gerou US$ 37 milhões em um ano (28% da receita total). Eles também criaram o Umbrella, um sistema de gestão de risco que permite eliminar dívidas incobráveis e que ainda oferecia rendimentos maiores aos stakers.

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A TokenLogic reconduziu o stablecoin GHO ao seu peg, contribuindo com mais US$ 13 milhões em receita. A Chaos Labs e a LlamaRisk cuidaram do gerenciamento de riscos do protocolo, garantindo que as alavancagens fossem mantidas com segurança. A ACI era responsável pelo desenvolvimento de negócios.

Os fracassos da Aave Labs

A Aave Labs ficou encarregada de desenvolver outros produtos:

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  • Protocolo social Lens e carteira Family
  • Aave Horizon e stablecoin GHO
  • Parcerias com outras empresas (Coinbase, Apollo, World Liberty Financial)
  • Desenvolvimento de interfaces

Os resultados, porém, ficaram abaixo do esperado. O Horizon se mostrou deficitário (para cada US$ 24 gastos, apenas US$ 1 foi gerado), o GHO perdeu seu peg — e outros prestadores tiveram que corrigir o problema. As negociações com parceiros também não avançaram: Coinbase e Apollo migraram para o concorrente Morpho, e o acordo com a WLFI fracassou, mesmo tendo sido dado como certo pelo fundador.

A ACI também reclamou de problemas na interface que a Labs não conseguiu resolver antes do lançamento da rede MegaETH.

Para ter uma ideia da proporção: pela entrega do v3, do v4 e pela organização de eventos, a Labs recebeu US$ 32 milhões da DAO — e agora pede mais US$ 50 milhões por um ano. A ACI recebeu US$ 4,6 milhões em três anos, e a TokenLogic recebeu US$ 3,9 milhões em dois anos e meio, tendo fechado mais parcerias de sucesso do que a Labs.

Acusações contra a Labs

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A ACI se posicionou contra a proposta da Labs e publicou um extenso relatório detalhando toda a situação.

Entre as acusações está o redirecionamento de receitas da integração com a CowSwap para carteiras da Labs — US$ 5,5 milhões sem qualquer votação, até que o caso veio à tona. Além disso, a Labs foi acusada de gastar recursos sem prestação de contas, de usar carteiras sob seu controle para votar contra a criação de mecanismos de transparência, de criar contas falsas em fóruns para simular apoio da comunidade e de manter a comunicação com os prestadores praticamente inexistente durante o desenvolvimento da v4. Para completar, a Labs detém todos os canais de comunicação e a própria marca.

A saída da BGD Labs

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A cereja do bolo foi o anúncio da BGD Labs de que está de saída, com as seguintes justificativas:

  • A Labs planeja criar restrições artificiais ao Aave v3 para forçar a migração dos usuários para a v4
  • A Labs está desacreditando o v3 ao chamá-lo de obsoleto
  • A Labs centralizou poder demais e está corroendo a confiança no protocolo

A BGD declarou que sairá em abril de 2026, ou em junho de 2026 caso a DAO pague US$ 200 mil pelo período de transição.

A proposta da Labs foi aprovada na DAO por uma margem estreita — algo incomum. A Labs recuou levemente quanto ao encerramento do v3 e disse que a transição seria gradual, mas sem oferecer qualquer cronograma concreto.

Isso também pode indicar que a maioria era contrária à proposta — porém a Labs detinha tokens AAVE suficientes para virar o placar.

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O racha se aprofunda: a saída da ACI

O conflito continua a se desdobrar. Em março de 2026, a Aave Chan Initiative anunciou sua saída da DAO — a equipe encerrará suas atividades ao longo de quatro meses e não renovará o contrato.

O motivo declarado é o conflito de governança com a Aave Labs. Segundo o fundador da ACI, Marc Zeller, a votação da proposta orçamentária da Labs deixou evidente que uma das partes é capaz de aprovar suas próprias decisões mesmo diante da resistência da comunidade. Ele considera o processo insuficientemente descentralizado.

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O dado é ainda mais revelador quando se olha para os números: a ACI recebeu apenas US$ 4,6 milhões em três anos, mas fechou mais parcerias do que a Labs. Segundo a equipe, a saída não foi motivada por dinheiro, mas pelo fato de que o poder de voto passou a pesar mais do que a contribuição real para o protocolo.

Com isso, tanto a BGD Labs quanto a ACI — dois dos principais colaboradores independentes da DAO — anunciaram sua saída. Se isso se concretizar, a Aave Labs ficará com a marca, a interface e a concentração de tokens para votação, mas sem as equipes responsáveis por 98% da receita do protocolo. Quem cuidará do gerenciamento de riscos, das integrações e da estabilidade do GHO nesse cenário é uma questão em aberto.

A saída de parte do núcleo de desenvolvedores pode impactar significativamente o protocolo — sua segurança, sua posição de mercado e o próprio token AAVE.

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Material preparado com o apoio de: Cripto Codigos

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