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Como o Cérebro Decide o Que Lembrar Durante o Sono

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Pesquisadores descobriram que o cĂ©rebro humano utiliza ondas elĂ©tricas de alta frequĂȘncia, conhecidas como “sharp wave ripples”, para selecionar e armazenar memĂłrias a longo prazo. O estudo, conduzido pelo professor de neurociĂȘncia da Universidade de Nova York, György BuzsĂĄki, e sua equipe, destaca a importĂąncia do descanso e do sono no processo de formação de memĂłrias. As observaçÔes sugerem que essas ondas, geradas durante perĂ­odos de descanso ou sono, funcionam como um mecanismo de “etiquetagem” que ajuda o cĂ©rebro a escolher quais experiĂȘncias conservar.

Wannan Yang, estudante de doutorado no laboratĂłrio de BuzsĂĄki e autora principal do estudo publicado em março na revista Science, explicou que essas ondas sĂŁo como um “show de fogos de artifĂ­cio no cĂ©rebro”. A equipe investigou a interconexĂŁo entre experiĂȘncias e “sharp wave ripples” durante experimentos com ratos em labirintos. Os ratos, equipados com eletrodos, foram monitorados enquanto navegavam pelos labirintos e depois descansavam ou dormiam. Descobriu-se que os episĂłdios que geravam mais ondas “sharp wave ripples” durante o descanso eram os mesmos que se repetiam durante o sono, sugerindo que essas ondas etiquetam experiĂȘncias para armazenamento a longo prazo.

Na década de 1980, Buzsåki jå havia proposto que essas ondas faziam parte do mecanismo cerebral para consolidar memórias. Observando ratos anestesiados, ele notou que seus cérebros produziam essas ondas råpidas e poderosas, em contraste com as ondas mais rítmicas e melódicas observadas durante a vigília. Esse contraste chamou a atenção de Buzsåki e o levou a explorar mais profundamente a função dessas ondas.

Outros cientistas tambĂ©m investigaram essas ondas. Em 1981, John O’Keefe, PrĂȘmio Nobel de NeurociĂȘncia, cunhou o termo “ripples” para descrever essas atividades elĂ©tricas irregulares no cĂ©rebro de roedores durante o sono. MichaĂ«l Zugaro, ex-membro do laboratĂłrio de BuzsĂĄki e agora no CollĂšge de France, destacou a visĂŁo antecipada de BuzsĂĄki ao sugerir que essas ondas nĂŁo eram apenas ruĂ­dos cerebrais, mas atividades relevantes para a memĂłria.

Avanços tecnolĂłgicos nas dĂ©cadas de 1990 e 2000 facilitaram a pesquisa das “sharp wave ripples”. Com melhorias na computação e ferramentas mais precisas, os cientistas puderam registrar a atividade elĂ©trica de mais de 100 neurĂŽnios simultaneamente. Descobriram que essas ondas pareciam reproduzir a atividade cerebral de um animal durante experiĂȘncias anteriores, como navegar por um labirinto, mas em uma velocidade muito maior. Segundo Hiroaki Norimoto, professor de neurociĂȘncia na Universidade de Nagoya, essas descobertas tornaram as “sharp wave ripples” famosas e destacaram seu papel na reativação de sequĂȘncias neurais.

Pesquisas adicionais na Ășltima dĂ©cada demonstraram que as “sharp wave ripples” sĂŁo essenciais nĂŁo apenas para a consolidação, mas tambĂ©m para a seleção de memĂłrias a serem armazenadas. Estudos mostraram que interferir nessas ondas piorava o desempenho dos roedores em tarefas de memĂłria. Lila Davachi, professora de psicologia na Universidade de Columbia, explicou que o cĂ©rebro estĂĄ “ensaiando” mesmo durante momentos de descanso acordado, reproduzindo e reforçando experiĂȘncias passadas.

Atualmente, a pesquisa continua a ampliar esse entendimento ao mostrar que as “sharp wave ripples” nĂŁo apenas consolidam, mas tambĂ©m selecionam quais memĂłrias armazenar. Daniel Bendor, neurocientista na University College London, comparou esse processo ao de um pianista reproduzindo uma sequĂȘncia especĂ­fica de notas para registrar uma experiĂȘncia.

Loren Frank, neurocientista da Universidade da CalifĂłrnia em SĂŁo Francisco, considera interessante o estudo da Universidade de Nova York mostrar como o cĂ©rebro pode estar criando um cĂłdigo temporal para distinguir memĂłrias que ocorrem no mesmo local, um conceito tambĂ©m apoiado por Freyja ÓlafsdĂłttir, neurocientista da Universidade de Radboud.

Apesar desses avanços, o trabalho de BuzsĂĄki e sua equipe deixa questĂ”es em aberto sobre por que algumas experiĂȘncias sĂŁo escolhidas em detrimento de outras. Shantanu Jadhav, neurocientista na Universidade de Brandeis, sugere que o estado interno do organismo pode influenciar quais experiĂȘncias sĂŁo armazenadas de maneira mais eficaz, embora nĂŁo esteja claro por que um rato lembra melhor de um teste do que de outro.

BuzsĂĄki continua comprometido com a exploração das “sharp wave ripples” no hipocampo, com esperança de que essas descobertas possam levar a aplicaçÔes potenciais, como tratamentos para transtornos como o transtorno de estresse pĂłs-traumĂĄtico, explorando a eliminação dessas ondas.

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