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Mais de 4.500 mulheres foram vĂ­timas de estupro no Rio em 2018

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No ano passado, 4.543 casos de estupro de mulheres foram registrados no estado do Rio de Janeiro. Em 70% dos casos, as vĂ­timas tinham atĂ© 17 anos. Em 44% dos registros, os agressores eram pessoas do convĂ­vio da vĂ­tima, como companheiros, ex-companheiros, pais, padrastos, parentes e conhecidos. Os dados fazem parte do DossiĂȘ Mulher 2019, elaborado pelo Instituto de Segurança PĂșblica (ISP) do Rio de Janeiro. Segundo o dossiĂȘ, a cada 24 horas, 12 mulheres sĂŁo vĂ­timas desse tipo de crime.

O ISP analisou delitos como homicĂ­dio doloso, feminicĂ­dio, tentativa de homicĂ­dio, tentativa de feminicĂ­dio, estupro, tentativa de estupro, lesĂŁo corporal dolosa, ameaça, assĂ©dio sexual, importunação ofensiva ao pudor, ato obsceno, dano, violação de domicĂ­lio, supressĂŁo de documento, constrangimento ilegal, calĂșnia, difamação e injĂșria, alĂ©m da aplicação da Lei Maria da Penha. O documento revela que, em quase todos os delitos analisados, mulheres representam mais da metade do total de vĂ­timas.

De acordo com a presidente do ISP, Adriana Pereira Mendes, desde 2015, tem aumentado o registro de crimes de estupro. “A situação Ă© extremamente grave. Os nĂșmeros sĂŁo preocupantes, e Ă© necessĂĄria a conscientização de todos, sobretudo das mulheres, no sentido de nĂŁo se submeter a situaçÔes de violĂȘncia”, disse Adriana.

Pardas e negras

O estudo lançado hoje (30), Dia Nacional da Mulher, mostra ainda que as mulheres pardas e negras foram as maiores vítimas de homicídio doloso naquele período. Entre os 350 casos anotados no ano passado, elas representaram 59%, seguidas por 33% de brancas e 8% de outras ou não informado. A faixa etåria mais atingida (36%) foi entre 30 e 59 anos. Em segundo, com 25% estão as mulheres entre 18 e 29 anos. Sem informação de idade, o percentual é de 19%. As vítimas com idade até 7 anos foram 9% e as de 60 anos ou mais, 8%.

Em 2018, houve 71 vĂ­timas de 71 vĂ­timas e 288 tentativas desse delito. Do total, 62% das oocorrĂȘncias foram dentro da casa da vĂ­tima e 56% dos autores eram companheiros ou ex-companheiros da vĂ­tima. De acordo com o documento, a cada cinco dias, uma mulher Ă© vĂ­tima de feminicĂ­dio. Para a presidente do ISP, o fato de o feminicĂ­dio ter se transformado em um qualificador do crime de homicĂ­dio, ajudou a dar mais visibilidade Ă s mortes de mulheres.

“Foi uma conquista – primeiro, para trazer uma punição mais grave e tentar com isso inibir essta prĂĄtica e, em segundo, para dar visibilidade ao problema de mulheres mortas. Para o Instituto de Segurança PĂșblica, essa classificação especĂ­fica Ă© importante, porque passamos a ter dados quantitativos de mais qualidade e a encaminhar aos ĂłrgĂŁos competentes para traçar polĂ­ticas pĂșblicas e açÔes de enfrentamento a essa questĂŁo”, disse Adriana.

ViolĂȘncia FĂ­sica

A dĂ©cima quarta edição do DossiĂȘ Mulher revela que, em termos de violĂȘncia fĂ­sica, a lesĂŁo corporal foi o crime que mais atingiu as mulheres. Foram 41.344 casos, o que indica que, a cada 24 horas, quatro mulheres foram vĂ­timas desse crime. O estudo mostra que, no mesmo perĂ­odo, quatro mulheres vĂ­timas de ameaça e, pelo menos, uma mulher sofre importunação ofensiva ao pudor.

A assistente social Elizabeth Pena, de 60 anos, disse que deu a volta por cima. Ela foi vĂ­tima de violĂȘncia por parte do marido atĂ© um dia que resolveu fazer a denĂșncia em uma delegacia. Elizabeth contou Ă  AgĂȘncia Brasil que, a partir daĂ­, dedicou-se apenas aos trĂȘs filhos. Depois que eles crescceram, Elizabeth voltou para a escola, completou o segundo grau e, por fim, entrou em uma universidade.

A delegada Juliana Emerique, da Coordenadoria-Geral de PolĂ­cia de Atendimento Ă  Mulher da Secretaria de Estado de PolĂ­cia Civil, ressalta a importĂąncia de se mudarem certos conceitos da sociedade. “Temos que quebrar esse estigma e vĂĄrios ditos populares. Acho que o maior deles Ă© o de que, ‘em briga de marido e mulher, nĂŁo se mete a colher’. Pelo contrĂĄrio. Hoje em dia, o conselho Ă© que, em briga de marido e mulhe,r a sociedade meta a colher. E a polĂ­cia tem o dever de agir.”

Conforme a delegada, as subnotificaçÔes dos casos de violĂȘncia contra a mulher ocorrem porque, muitas vezes, ela sequer sabe por onde começar. “A atuação em rede Ă© muito importante. O hospital tem que saber onde referenciar essa mulher, para qual delegacia deve encaminhar. A prĂłpria delegacia tem que fazer um bom encaminhamento. E a PolĂ­cia Militar [tambĂ©m]. Todos juntos na sociedade para tentar fazer com que as mulheres nĂŁo sofram mais.”

A pesquisadora FlĂĄvia Manso, que trabalhou na elaboração dos dados do dossiĂȘ, deu um depoimento pessoal. Ela contou que, aos 17 anos, foi vĂ­tima de violĂȘncia sexual e levou 10 anos para ter o caso reconhecido pela Justiça. Antes disso, chegou a ser acusada de ter provocado a ação e ter recorrido Ă  Justiça para ser autorizada a fazer um aborto da gravidez que resultou do ato. Segundo FlĂĄvia, o agressor chegou a ser preso, mas foi solto. Logo depois, atacou outras mulheres da mesma forma. “SĂł na segunda instĂąncia, a verdade foi restabelecida. SĂł na segunda instĂąncia, consegui sair da clandestinidade”, afirmou a pesquisadora.

Pacto

Durante o lançamento do DossiĂȘ Mulher 2019, a juĂ­za Adriana Ramos de Melo, titular do 1Âș Juizado de ViolĂȘncia DomĂ©stica e Familiar contra a Mulher do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, propĂŽs a criação de um pacto de enfrentamento desse tipo de violĂȘncia para definir polĂ­ticas pĂșblicas de combate a crimes como os apontados no documento. “Que polĂ­tica pĂșblica a gente pode adotar a partir de hoje? A gente precisa criar um pacto estadual”, disse a juĂ­za.

O vice-governador do Rio, ClĂĄudio Castro, concordou com a proposta e marcou para a semana que vem um encontro com integrantes de diversos ĂłrgĂŁos para discutir a proposta de pacto. “Temos que acabar com a impunidade. A impunidade do agressor Ă© um dos motivos para ele nĂŁo desistir, porque ele sabe que nada vai acontecer e que a mulher nĂŁo terĂĄ coragem, muitas vezes, ou porque depende financeiramente, outas vezes por sua condição familiar. Essa realidade tem que acabar.”

Castro acrescentou que o agressor nĂŁo pode se valer de ser quem coloca o recurso em casa para agredir alguĂ©m. “A gente tem que acabar com essa impunidade. Contem comigo”, disse.

A aplicação da Lei Maria da Penha permitiu a qualificação como violĂȘncia domĂ©stica e familiar em 15% dos homicĂ­dios dolosos, 61% das ameaças, 39% dos estupros e 65% das lesĂ”es corporais. “Apesar de se associar a Lei Maria da Penha a uma briga entre marido e mulher, ela [lei] vai muito alĂ©m disso”, observou a pesquisadora FlĂĄvia Manso.

FlĂĄvia apontou outra questĂŁo que contribui para limitar a reação da mulher Ă s agressĂ”es: a supressĂŁo de documentos pelo agressor, o que impede a vĂ­tima de fazer a denĂșncia.

Na anĂĄlise por regiĂ”es, a zona oeste da capital foi a que registrou o maior nĂșmero de denĂșncias, especialmente nos bairros de Campo Grande, Bangu, Santa Cruz, Taquara, Pedra de Guaratiba. Em seguida, aparecem localidades da Baixada Fluminense como Posse, Vilar dos Teles, Comendador Soares, Belford Roxo e Duque de Caxias.

*Com AgĂȘncia Brasil

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