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A imagem que mais chocou os leitores na recente cobertura do The New York Times sobre Jeffrey Epstein não é uma fotografia de suas celebridades convidadas nem um documento financeiro, mas sim uma escultura: uma figura feminina em tamanho real, vestida com um verdadeiro vestido de noiva, pendurada por uma corda próxima à escada principal de sua mansão no Upper East Side, em Nova York.
Essa peça, provavelmente a “boneca feminina em tamanho real pendurada em um lustre” mencionada em reportagens anteriores, resume a estética perturbadora e a mensagem ambígua que marcaram a coleção de arte do financista e predador sexual.
A divulgação dessas imagens inéditas, junto a documentos que mostram como Epstein viveu seus últimos anos, reacendeu o interesse pelo significado e pela função de sua coleção artística.
A origem das fotos não foi esclarecida, o que gerou frustração entre os leitores. O jornalista David Enrich, do veículo americano, respondeu nos comentários: “Não posso dizer muito para proteger as fontes que nos forneceram as informações. Só posso compartilhar que publicamos essas informações assim que pudemos.”
Além da escultura da noiva pendurada, as imagens revelam que Epstein instalou câmeras nos quartos e exibia orgulhosamente fotos ao lado de figuras como Donald Trump e outros influentes.
Entre os objetos destacados estão um mapa de Israel desenhado à mão pelo ex-primeiro-ministro Ehud Barak e uma nota de um dólar assinada por Bill Gates com a enigmática frase: “Você estava certo!”. Esses itens, junto a uma abundante memorabilia, reforçam a narrativa de um homem obcecado em mostrar sua proximidade com os poderosos.
O valor simbólico da coleção contrasta com seu valor econômico real. Embora um de seus marchands tenha dito que Epstein gastou entre 200 mil e 300 mil dólares em objetos decorativos e pinturas, um relatório de 2022 avaliou seu conjunto de “obras de arte, objetos de coleção e móveis” em apenas 338.804 dólares. Para alguém dono de várias residências luxuosas — só a propriedade em Manhattan tinha 40 quartos — essa quantia é modesta. Seu patrimônio gastava 15 mil dólares por mês apenas para armazenar essas peças, o que reduzia rapidamente qualquer chance de recuperar o investimento.
O passeio pelos objetos mais emblemáticos revela padrões inquietantes: filas de olhos protéticos emoldurados individualmente, supostamente feitos para soldados ingleses feridos; uma escultura de um guerreiro africano nu com o dobro do tamanho natural; animais empalhados como um tigre, uma girafa e um cachorro, este último às vezes acompanhado de fezes falsas; e um jogo de xadrez cujas peças representavam seus próprios funcionários vestidos de forma provocativa.
“Parsing Bill” (2012), de Petrina Ryan-Kleid
A coleção também incluía objetos de design que tentavam passar por arte, como cinco lápis arquitetônicos gigantes fundidos em bronze e avaliados em 10 mil dólares cada, além de um mural hiper-realista que mostrava Epstein em uma cena de prisão, do qual costumava dizer aos convidados que lhe lembrava seu possível destino.
Na sala de massagens, pendia uma obra de 4,5 metros, descrita como uma foto ou pintura de uma menina nua, que uma vítima qualificou como “artística” e não “pornográfica” em seu depoimento. Referências a pinturas e fotos de mulheres e meninas nuas são recorrentes nas descrições de suas propriedades.
“Pequena Senhorita Tomate Rosa” (1995), uma pintura de Damian Loeb
Entre as peças mais perturbadoras está Little Miss Pink Tomato (1995), uma pintura de Damian Loeb que retrata oito meninas de maiô sob luzes de palco, evocando um concurso de beleza infantil. Maria Farmer, uma das vítimas de Epstein, lembrou que ele adquiriu essa obra. Em seu rancho no Novo México, um empreiteiro descreveu um grande quadro de uma menina reclinada sobre um leão, medindo aproximadamente 1,5 x 1,5 ou 1,8 x 1,8 metros, que classificou como inquietante.
Na casa em Palm Beach havia uma pintura de uma mulher nua de costas, obra de Limor Gasko, leiloada online por 8.500 dólares como “Arte encomendada por Jeffrey Epstein”. Também havia uma imagem artística em preto e branco de uma modelo nua na cama, do fotógrafo britânico Laurence Sackman, e o que parecia ser um fragmento escultórico ou manequim da parte inferior do corpo de uma mulher nua.
Na ilha Little St. James, foi relatado um retrato de Epstein junto ao papa, provavelmente João Paulo II, segundo o Business Insider. A obra mais infame da coleção foi um óleo de Bill Clinton vestido com terno azul e salto alto vermelho, pintado pela estudante Petrina Ryan-Kleid e comprado em sua exposição de formatura na New York Academy of Art. Intitulada Parsing Bill, a obra comentava como políticos ficam associados a escândalos, com o vestido fazendo alusão a Monica Lewinsky. Para os observadores de Epstein, a pintura sugeria que ele possuía informações comprometedoras sobre Clinton.

Fotografia de Andrés Pastrana, Fidel Castro e Jeffrey Epstein – Crédito da captura de tela: The New York Times
Entre as peças de maior valor estava Femme Fatale (c. 1905), de Kees van Dongen, uma imagem fauvista de uma mulher com chapéu e o seio esquerdo à mostra, que em certo momento ficou pendurada atrás de sua escrivaninha. Uma versão dessa obra foi vendida por 5,9 milhões de dólares em 2004 na casa de leilões Christie’s — valor várias vezes superior à avaliação total da coleção de Epstein em 2022. Contudo, há suspeita de que a peça em sua posse seria uma falsificação.
A presença de obras “no estilo de Jean Dubuffet” e de um “Max Weber ou algo parecido”, mencionadas por seu ex-assessor de arte, reforça a ideia de que muitas peças eram imitações. O mesmo assessor sugeriu que Epstein gostava de enganar o mundo com arte falsa, acreditando que desmascarava a farsa do mercado artístico. A coleção também incluía “Rodins menores de idade”, cuja autenticidade também era duvidosa.
Um caso atípico foi uma escultura renascentista da Madonna do século XVI, que Epstein trocou com o artista Andres Serrano por um retrato feito para sua exposição Infamous, apenas três meses antes de sua prisão em julho de 2019. O próprio Serrano resumiu a qualidade da coleção: “Ele não era um bom colecionador. Tinha obras ruins.”
A análise da coleção revela quatro temas recorrentes: piadas de mau gosto, decoração estilo “bordel”, objetos de design com pretensões artísticas e falsificações ou prováveis falsificações. Sobre os dois primeiros, a marchand Leah Kleman declarou à Bloomberg: “Ele gostava muito do valor do choque.” Quanto aos outros dois, o ex-assessor Stuart Pivar explicou à Mother Jones que Epstein se divertia enganando o mundo com arte falsa, acreditando que expunha a farsa da arte contemporânea.
A escultura da mulher pendurada, destaque da matéria do New York Times, representa a interseção desses quatro temas: é uma peça provocativa, feita para impactar, que simula pertencer à arte contemporânea, mas não tem assinatura de nenhum artista reconhecido.

“O Arco da Histeria” de Louise Bourgeois (Sotheby’s)
A comparação com a instalação The Arch of Hysteria (1993), de Louise Bourgeois, exibida na casa de Tony e Heather Podesta, é inevitável. Essa obra, que mostra o corpo contorcido e decapitado de uma mulher suspensa pelo umbigo, foi usada como “prova” por teóricos da conspiração no caso Pizzagate, em 2016.
Apesar de seus vínculos com grandes colecionadores como Les Wexner e Leon Black, que entendiam arte como símbolo de status, Epstein preferiu cercar-se de falsificações e peças grotescas. Ele não tentava enganar quem compartilhava seu círculo, pois eles sabiam exatamente o que o conjunto artístico sugeria: que ele pertencia a um universo moral e estético com outras regras. A escultura da noiva pendurada, com sua carga de transgressão e ambiguidade, parece feita para transmitir a mensagem de que seu dono podia tudo.