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A morte de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, após invadir o recinto de uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa, no domingo (30), abriu uma nova frente de questionamentos sobre falhas do poder público no acompanhamento de pessoas com transtornos mentais. A conselheira tutelar Verônica Oliveira, responsável pelo atendimento ao jovem entre os 10 e 18 anos, afirma que o Estado ignorou sinais evidentes de transtornos psiquiátricos e não ofereceu o suporte necessário.
Segundo Verônica, Gerson esteve sob acompanhamento do Conselho Tutelar de Mangabeira por nove anos, período em que a equipe solicitou diversos laudos médicos. Ela relata que, apesar dos alertas e do histórico familiar de esquizofrenia, o Estado classificava o jovem apenas como alguém com “problemas comportamentais”.
“Era visível o transtorno mental. O Estado dizia que ele só tinha problemas comportamentais. Será que alguém com problema comportamental entra na jaula do leão?”, questionou a conselheira nas redes sociais.
Ela ainda afirmou que a família de Gerson — mãe e avós — também apresentava histórico de esquizofrenia, reforçando a necessidade de acompanhamento especializado. “Nós lutamos muito para garantir os direitos de Gerson”, disse.
Documentos judiciais mostram que Gerson havia sido considerado inimputável devido a um diagnóstico de esquizofrenia. Em decisão de 30 de outubro, o juiz Rodrigo Marques de Silva Lima determinou que o jovem fosse internado em uma instituição de longa permanência, considerando o tratamento ambulatorial insuficiente diante da gravidade do caso.
A juíza Conceição Marsicano confirmou à TV Cabo Branco que também havia solicitado acompanhamento intensivo. “Ele foi encaminhado para o CAPS. Ele tem laudo. O órgão técnico deveria acompanhar e garantir os cuidados necessários”, afirmou.
Segundo Janaína D’emery, diretora do CAPS Caminhar, onde Gerson era atendido, o jovem resistia ao regime integral de 24 horas. Ela explicou que os Centros de Atenção Psicossocial não oferecem moradia, mas possibilitam atendimentos intensivos quando necessário.
“Ele não queria de hipótese alguma ficar no 24 horas. Ofertamos acompanhamento intensivo de segunda a segunda. Ele vinha, participava das atividades e era medicado”, disse.
O Ministério Público da Paraíba destacou que, em situações como a de Gerson, o município deve encaminhar o paciente para uma residência terapêutica ou casa de acolhida. “O tratamento ambulatorial seria insuficiente para conter o ímpeto perigoso do réu”, afirmou o promotor Leonardo Pereira.
Na manhã de domingo, Gerson escalou um muro de mais de seis metros, ultrapassou grades e usou uma árvore para entrar na área onde estava a leoa. O animal acompanhou todo o movimento. Assim que o jovem começou a descer, a leoa avançou e o atacou pelo pescoço. Ele morreu ainda no local.
A Prefeitura de João Pessoa informou que o zoológico segue todas as normas técnicas e que equipes tentaram impedir a invasão. O Parque Arruda Câmara permanece fechado sem previsão de reabertura.
A administração do zoológico afirmou que a leoa envolvida no ataque não será sacrificada. Ela foi avaliada pela equipe técnica logo após o incidente e segue em observação.