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O Irã vive uma das maiores crises políticas e sociais desde a Revolução Islâmica de 1979. Milhares de pessoas tomaram as ruas de grandes cidades do país nos últimos dias em protestos que já duram quase duas semanas e foram impulsionados, inicialmente, pela revolta popular contra o alto custo de vida, o desemprego e a deterioração da economia. No entanto, o movimento rapidamente ganhou contornos mais amplos e passou a questionar abertamente a permanência do regime teocrático no poder.
Diante da escalada das manifestações, o líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, adotou um tom desafiador nesta sexta-feira, afirmando que a República Islâmica “não vai recuar” frente aos protestos. Em discurso transmitido pela televisão estatal, Khamenei classificou os manifestantes como “vândalos” e “sabotadores”, reforçando a retórica de confronto usada historicamente pelo regime em momentos de instabilidade interna.
As declarações ocorrem após as maiores manifestações já registradas desde o início do movimento, na noite de quinta-feira, quando multidões marcharam por diferentes regiões do país entoando palavras de ordem como “morte ao ditador” e “morte à República Islâmica”. Em diversas cidades, prédios públicos foram incendiados, incluindo instalações ligadas à mídia estatal e sedes administrativas regionais.
Apagão total de internet tenta conter avanço dos protestos
Na tentativa de conter a mobilização popular e impedir a circulação de imagens e informações para o exterior, as autoridades iranianas determinaram um apagão quase total das comunicações. A organização internacional Netblocks, especializada no monitoramento da internet, informou que o país ficou completamente offline por pelo menos 12 horas, em uma medida classificada como uma das mais severas já adotadas pelo regime.
Segundo a entidade, o corte de conectividade começou na noite de quinta-feira e se estendeu pela madrugada de sexta-feira, afetando internet, telefonia fixa e até comunicações móveis, em uma tentativa clara de suprimir a visibilidade dos protestos e dificultar a coordenação entre os manifestantes.
Especialistas apontam que o bloqueio também cria um cenário propício para abusos por parte das forças de segurança, uma vez que reduz drasticamente a capacidade de registro independente de ações repressivas, incluindo possíveis mortes e prisões arbitrárias.
Protestos desafiam diretamente o regime teocrático
Analistas internacionais avaliam que os protestos atuais representam um dos maiores desafios à República Islâmica em mais de quatro décadas. Diferentemente de manifestações anteriores, que costumavam se concentrar em demandas econômicas ou sociais, os atos mais recentes passaram a exigir explicitamente o fim do sistema teocrático, algo raro e extremamente sensível no contexto político iraniano.
Durante seu pronunciamento, Khamenei também atacou duramente os Estados Unidos e o presidente Donald Trump, afirmando que o líder norte-americano tem as mãos “manchadas com o sangue de mais de mil iranianos”, em referência à recente guerra travada por Israel contra o Irã com apoio e participação direta dos EUA.
O líder supremo iraniano chegou a afirmar que Trump terá o mesmo destino da dinastia imperial derrubada em 1979, sugerindo que o presidente americano também seria “derrubado”. Em meio ao discurso, apoiadores presentes no local entoavam slogans como “morte à América”, em uma demonstração de fidelidade ao regime.
“Todos sabem que a República Islâmica chegou ao poder com o sangue de centenas de milhares de pessoas honradas. Ela não vai recuar diante de sabotadores”, afirmou Khamenei.
Trump ameaça reação dura e fala em queda do regime
Do outro lado, o presidente Donald Trump respondeu de forma igualmente agressiva. Em declarações feitas na noite de quinta-feira, o líder norte-americano afirmou que o “entusiasmo para derrubar o regime iraniano é incrível” e deixou claro que os Estados Unidos reagiriam com força caso o governo iraniano optasse por uma repressão letal.
“Se eles matarem manifestantes, nós vamos atacá-los com muita força. Estamos prontos para isso”, disse Trump, elevando ainda mais a tensão internacional.
Trump também afirmou que Khamenei estaria considerando deixar o país, em meio a rumores de que o líder supremo poderia buscar refúgio na Rússia, informação que não foi confirmada oficialmente.
Reza Pahlavi emerge como símbolo da oposição
Os protestos também marcam o primeiro grande teste político para Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, deposto pela Revolução Islâmica. Vivendo nos Estados Unidos, Pahlavi convocou publicamente a população a sair às ruas e tem sido apontado por analistas como uma possível figura de convergência da oposição no exílio.
Em um vídeo publicado na rede social X, Pahlavi afirmou confiar que os iranianos continuariam nas ruas mesmo diante do bloqueio de comunicações. “Eu sei que, apesar dos cortes de internet e comunicação, vocês não vão abandonar as ruas. Tenham certeza: a vitória pertence a vocês”, declarou.
Durante os protestos, manifestantes chegaram a entoar slogans favoráveis à antiga monarquia, algo que no passado poderia resultar em pena de morte, mas que hoje simboliza o nível de indignação popular com o regime atual.
Violência, mortes e prisões em massa
De acordo com a Human Rights Activists News Agency, organização com sede nos Estados Unidos, ao menos 50 pessoas morreram desde o início das manifestações, enquanto mais de 2.270 foram detidas pelas forças de segurança.
Vídeos verificados mostram multidões ocupando importantes avenidas de Teerã, como a Ayatolá Kashani Boulevard, com motoristas buzinando em apoio e manifestantes gritando palavras de ordem contra Khamenei, que governa o país desde 1989.
Outras gravações indicam protestos significativos em cidades como Tabriz, Mashhad, Kermanshah e Isfahan, onde manifestantes teriam incendiado a entrada da sede regional da televisão estatal. Imagens também mostram fogo no prédio do governo da cidade de Shazand, na província de Markazi.
Maior mobilização desde os protestos por Mahsa Amini
Especialistas afirmam que os protestos desta semana são os maiores desde as manifestações de 2022 e 2023, desencadeadas pela morte de Mahsa Amini, jovem que faleceu sob custódia da polícia moral após ser presa por suposta violação das rígidas regras de vestimenta.
Segundo analistas, a combinação entre crise econômica, repressão política, conflitos regionais e o recente endurecimento das sanções internacionais criou um ambiente explosivo, capaz de mobilizar diferentes setores da sociedade iraniana.
Impacto internacional e suspensão de voos
A instabilidade no país já provoca reflexos fora do Irã. Companhias aéreas começaram a cancelar voos por motivos de segurança. A Turkish Airlines suspendeu cinco voos programados para Teerã nesta sexta-feira, enquanto companhias iranianas também cancelaram operações.
Governos europeus acompanham a situação com preocupação, enquanto Reza Pahlavi pede apoio internacional para restabelecer as comunicações e garantir que a repressão não ocorra longe dos olhos do mundo.