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Há mais de um quarto de século, uma figura escura e ramificada surgiu nas imagens enviadas pela sonda Galileo, vinda do remoto sistema de Júpiter. O enigma dessa marca, comparada por muitos a uma sinistra “aranha congelada” sob o gelo, intrigou cientistas e entusiastas do espaço desde então.
Agora, uma investigação publicada no The Planetary Science Journal revelou respostas inéditas: a origem da misteriosa formação em Europa, uma das luas de Júpiter, pode estar ligada a processos muito semelhantes aos que ocorrem em lagos congelados aqui na Terra.
O Segredo no Cratera Manannán
O foco da pesquisa é a cratera Manannán, uma estrutura de 22 quilômetros de diâmetro na superfície gélida de Europa. Dentro dela, a Galileo detectou, em 1998, um padrão expansivo em forma de asterisco, batizado como Damhán Alla (termo irlandês para “aranha” ou “demônio de parede”).
Para explicar a figura, a pesquisadora Lauren Mc Keown, da Universidade da Flórida Central (UCF), e sua equipe na NASA buscaram inspiração nas “estrelas de lago” terrestres. Na Terra, esses padrões em forma de árvore surgem em lagos congelados quando a água sobe por fissuras e encharca a neve acumulada no topo.

As ‘estrelas de lago’ surgem quando a água atravessa diminutos orifícios no gelo e se dispersa sob uma camada de neve ou de neve derretida na superfície. Fenômenos comparáveis poderiam estar ocorrendo em outros mundos de gelo do sistema solar (Mc Keown et al., 2025).
Experimento em Laboratório
Para testar a hipótese, a equipe criou um simulador com as condições extremas de Europa:
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Temperatura: Beirando os -100 °C.
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Material: Gelo simulado e água salgada (salmoura).
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Processo: Os resultados sugerem que, após o impacto de um asteroide, a fratura liberou salmoura do interior da lua. Esse líquido emergiu, espalhou-se e congelou no padrão arborescente observado.
“A importância de nossa investigação é emocionante, já que esses padrões superficiais podem indicar processos ativos abaixo do gelo”, declarou Mc Keown.
A descoberta reforça a teoria de que existem depósitos de água salgada a pouca profundidade em Europa — uma condição que, em teoria, aumenta as chances de o satélite abrigar formas de vida.
Europa Clipper: A Próxima Fronteira
Embora o fenômeno lembre as “aranhas de Marte” (causadas por dióxido de carbono), o processo em Europa é impulsionado por água líquida salgada. Isso torna a lua de Júpiter um dos alvos principais da astrobiologia.
As atenções agora se voltam para a missão Europa Clipper, da NASA, lançada em outubro de 2024. A sonda deve chegar ao sistema de Júpiter em 2030 e terá como missão:
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Obter imagens de altíssima resolução da cratera Manannán.
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Identificar outros padrões Damhán Alla pela superfície da lua.
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Mapear reservatórios de água que podem estar a apenas seis quilômetros de profundidade.
Um Mundo em Atividade
Segundo Elodie Lesage, do Planetary Science Institute, a presença dessas formações sugere que Europa está longe de ser um mundo morto. A atividade geológica e a presença de salmouras indicam um ambiente dinâmico que pode ter durado milhares de anos após os impactos de asteroides.
Com a Clipper, a ciência espera finalmente entender se o oceano oculto sob a crosta de gelo de Europa possui os compostos químicos necessários para a vida como a conhecemos.