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Uma nova execução pública em nome de um “crime de honra” voltou a chocar o Paquistão e expôs a persistência de práticas brutais e arcaicas. O cenário foi a remota província do Baluquistão, no sudoeste do país, onde um casal foi assassinado à luz do dia por ordem de um líder tribal, que os acusou de manter uma relação “ilícita”.
O crime, ocorrido há semanas, ganhou notoriedade após a viralização de um vídeo nas redes sociais que documenta o momento da execução. As imagens mostram a mulher caminhando lentamente, envolta em um xale e com a cabeça baixa, sendo seguida por um homem armado. Rodeada por cerca de doze homens, ela para e se dirige ao seu algoz com voz firme: “Você só pode atirar em mim, mais nada”. O assassino levanta a arma e dispara. Ela permanece de pé após os dois primeiros disparos, mas desaba após o terceiro. Outros tiros são ouvidos em seguida. Um segundo vídeo mostra os corpos ensanguentados do homem e da mulher, caídos lado a lado.
Consultada pela emissora CNN, a polícia do Baluquistão confirmou que os vídeos correspondem ao crime que está sob investigação. Segundo o relatório oficial, o líder tribal não apenas condenou a dupla, mas emitiu uma ordem direta de execução. Desde a divulgação do material, pelo menos 11 pessoas foram presas, embora não esteja claro se o líder responsável pela sentença está entre elas.
O ministro-chefe do Baluquistão, Safraz Bugti, condenou o ato com veemência, classificando-o como “intolerável” e uma “violação flagrante dos valores sociais e da dignidade humana”. No entanto, a condenação das autoridades não é suficiente para reverter uma realidade profundamente enraizada em vastas áreas rurais do Paquistão, onde conselhos tribais, conhecidos como jirgas, ditam uma justiça paralela baseada em conceitos arcaicos de honra, lealdade e moralidade.
Os crimes de honra continuam a ser uma prática frequente no país, apesar das tentativas legislativas de erradicá-los. Dados da Comissão de Direitos Humanos do Paquistão (HRCP) indicam que, em 2023, pelo menos 335 mulheres e 119 homens foram mortos nessa modalidade. Especialistas, contudo, acreditam que os números reais são muito maiores devido à falta de denúncias e ao silêncio cúmplice de famílias e comunidades.
A reação do governo a esta nova execução reflete um padrão: a condenação oficial só chega tarde, quando o impacto da mídia força uma resposta. Enquanto isso, a lacuna entre o discurso oficial e a realidade cotidiana segue abismal, e centenas de pessoas vivem sob a constante ameaça de se tornarem a próxima vítima do “honor” familiar.