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Durante décadas, a compra de um imóvel no Brasil foi associada a um marco emocional de conquista pessoal. No entanto, especialistas alertam que esse modelo, baseado mais no sonho do que na estratégia, começa a cobrar um preço alto diante de crédito restrito, juros elevados e mudança no comportamento das famílias.
Segundo levantamento da Ipsos-Ipec, encomendado pelo Grupo QuintoAndar, 41% dos brasileiros que desejam comprar um imóvel afirmam não ter recursos para a entrada ou financiamento, enquanto 30% apontam os preços elevados e 21% citam os juros altos como principais entraves. O dado revela uma combinação perigosa entre desejo e incapacidade financeira, resultado direto de decisões pouco planejadas.
Para Paolla Alves, analista de investimentos imobiliários, o problema não está apenas no valor do imóvel, mas na forma como a compra é pensada:
“O brasileiro aprendeu a escolher imóvel pela emoção. Hoje, sem método, leitura de ciclo e estratégia de saída, um bom imóvel pode se transformar em um mau investimento.”
Na prática, muitos compradores analisam apenas o preço de venda e ignoram custos estruturais que impactam diretamente o retorno financeiro ou a sustentabilidade da compra. Despesas como ITBI, escritura e registro podem representar entre 6% e 9% do valor do imóvel, além de gastos recorrentes com IPTU, condomínio, manutenção e eventuais reformas.
“O erro não está necessariamente em pagar caro, mas em comprar o produto errado para o objetivo errado. Imóvel não é ativo líquido. Quando essa característica é ignorada, o comprador fica vulnerável a cenários de aperto financeiro”, comenta Alves.
Com a taxa Selic em patamares elevados nos últimos anos, o custo efetivo dos financiamentos imobiliários aumentou significativamente, reduzindo a capacidade de compra, alongando prazos e comprometendo o orçamento das famílias no longo prazo.
Em São Paulo, o valor médio do metro quadrado residencial gira em torno de R$ 11,9 mil, o que coloca o preço típico de um apartamento na casa de R$ 700 mil ou mais, enquanto o rendimento domiciliar per capita é de R$ 2.662, segundo o IBGE, evidenciando que a renda cresce em ritmo bem mais lento que o valor dos imóveis.
Para a especialista, o imóvel continua sendo um instrumento legítimo de proteção patrimonial, mas apenas quando inserido em uma estratégia clara:
“Comprar sem calcular custos totais, horizonte de permanência e liquidez é assumir um risco que muitos só percebem anos depois.”
Ela destaca que decisões bem-sucedidas passam por perguntas básicas, muitas vezes ignoradas: quanto do orçamento pode ser comprometido com segurança, qual o tempo de permanência no imóvel e qual será a estratégia de saída caso o cenário mude.
“O mercado imobiliário segue relevante, mas exige racionalidade. O ciclo mudou. Quem não se adapta, paga a conta”, conclui Paolla Alves.