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Partido Ultraortodoxo Anuncia Saída da Coalizão de Netanyahu por Impasse no Serviço Militar

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O partido Judaísmo Unido da Torá (UTJ), uma das duas principais formações ultraortodoxas de Israel, anunciou na noite de ontem sua decisão de abandonar a coalizão de governo, devido à falta de progresso na aprovação de uma lei que permitiria aos judeus ultraortodoxos evitar o serviço militar obrigatório. A informação foi divulgada pela agência EFE. A decisão foi tomada pelas duas facções que compõem o partido, após rejeitarem uma proposta apresentada por um parlamentar do Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, encarregado de negociar a nova legislação.

A saída do UTJ deve ser formalizada nos próximos dois dias e deixaria a coalizão governista com uma maioria mínima. Atualmente, o UTJ possui sete cadeiras na Knéset, o Parlamento israelense, e sua retirada reduziria os assentos da coalizão para 61, de um total de 120. Contudo, a estabilidade do governo Netanyahu corre risco ainda maior se o outro partido ultraortodoxo, Shas, também decidir se retirar da coalizão. Isso faria com que a coalizão recuasse para 50 cadeiras, ficando abaixo da maioria parlamentar e abrindo as portas para uma possível queda do Executivo.

A Questão da Isenção Militar

O ponto central da disputa é a histórica isenção do serviço militar concedida aos estudantes de yeshiva (escola religiosa judaica) da comunidade ultraortodoxa. Essa isenção, autorizada desde a fundação do Estado de Israel, permitia que homens judeus que se dedicavam ao estudo religioso em tempo integral não precisassem cumprir o serviço militar obrigatório, que é compulsório para a vasta maioria da população masculina, exigindo pelo menos 32 meses de serviço. A comunidade Haredi (ultraortodoxa) tem defendido que sua dedicação aos textos sagrados constitui um pilar fundamental para a sociedade israelense. No entanto, esse argumento é rejeitado por uma parte significativa da opinião pública, especialmente desde o início da guerra com o Hamas na Faixa de Gaza.

No mês passado, o clima político ficou especialmente tenso após um aviso do Shas, que não descartou apoiar uma moção para dissolver a Knéset caso não se chegasse a um acordo sobre a nova lei de recrutamento. Asher Medina, porta-voz do Shas, declarou à rádio pública israelense: “Não queremos derrubar um governo de direita, mas chegamos a um limite”, sublinhando o mal-estar nas fileiras ultraortodoxas. O aviso coincidiu com o impulso da oposição para apresentar um projeto que visa acabar com as isenções militares, buscando capitalizar o descontentamento de um setor que sente suas tradições ameaçadas.

Crise e Futuro Político

 

A atual crise remonta à expiração, em julho de 2023, da última disposição temporária que permitia aos ultraortodoxos evitar o serviço militar. Em junho de 2024, o Tribunal Supremo de Israel ordenou que as forças armadas procedessem ao recrutamento de membros da comunidade Haredi, uma vez que as isenções já não tinham cobertura legal. Diante da ordem judicial, o Executivo tentou tramitar uma nova lei que restabeleceria a maior parte das isenções, embora propusesse também o alistamento de uma pequena porcentagem de estudantes ultraortodoxos. No entanto, a iniciativa permanece bloqueada porque Yuli Edelstein, parlamentar responsável pela comissão respectiva, recusou-se a avançar em uma proposta que não eleve significativamente o número de conscritos da comunidade ultraortodoxa.

Paralelamente a essas discussões, as Forças de Defesa de Israel começaram na semana passada a enviar ordens de recrutamento para cerca de 55.000 judeus Haredi. O Exército anunciou que aumentará suas operações de acompanhamento e controle para evitar a evasão ou a deserção, embora, para reduzir a resistência, tenha prometido aos ultraortodoxos “as melhores condições para manter seu estilo de vida único” e anunciou a abertura de canais adicionais para favorecer sua integração.

O debate sobre a isenção militar para os ultraortodoxos se intensificou desde 7 de outubro de 2023, data do maior ataque sofrido por Israel desde a fundação do Estado, que provocou uma operação militar em grande escala na Faixa de Gaza e a mobilização de dezenas de milhares de reservistas. A pressão social sobre a partilha igualitária das obrigações defensivas se reflete em dados de uma pesquisa publicada em março de 2024 pelo Israel Hayom, segundo a qual 85% dos judeus israelenses apoiam a modificação da lei de recrutamento para os religiosos, e 41% são a favor de tornar o serviço militar obrigatório para todos os membros da comunidade Haredi em idade de serem recrutados.

A coalizão formada em dezembro de 2022, considerada uma das mais direitistas da história de Israel, depende para sua sobrevivência dos partidos ultraortodoxos e outras formações de direita. A crise atual representa um dos maiores desafios para a continuidade do governo, pois uma possível retirada de Shas e UTJ deixaria Netanyahu sem margem parlamentar, com a ameaça real de novas eleições antecipadas. A situação continuará dependendo das negociações sobre o futuro sistema de recrutamento, em um momento em que a necessidade de novos soldados tornou a questão um dos eixos centrais da política israelense.

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