Entre nos nossos canais do Telegram e WhatsApp para notícias em primeira mão. Telegram: [link do Telegram]
WhatsApp: [link do WhatsApp]
A 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30) tem início nesta segunda-feira (10), em Belém (PA), colocando o Brasil no centro das discussões globais sobre transição energética, preservação ambiental e os rumos do combate ao aquecimento global. O evento, no entanto, começa sob pressão: além dos problemas de infraestrutura e logística na cidade-sede, o mundo enfrenta um novo recorde nas emissões de gases de efeito estufa.
De acordo com dados divulgados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), as emissões globais alcançaram 57,7 bilhões de toneladas de CO₂ em 2024 — um aumento de 2,3% em relação a 2023. O crescimento é mais de quatro vezes superior à média da década passada e coloca em risco a meta do Acordo de Paris, que busca limitar o aquecimento global a 1,5°C até o fim do século.
Com esse cenário, o Pnuma alerta que, mantido o ritmo atual, a temperatura média do planeta deve subir cerca de 2,3°C. Para evitar isso, seria necessário reduzir as emissões em 40% até 2030, em comparação com os níveis de 2019.
O tabu dos combustíveis fósseis
O principal tema da conferência será a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, maior fonte dos gases responsáveis pelo aquecimento global. A questão, considerada essencial para o cumprimento das metas climáticas, tornou-se sensível após o impasse na COP28, realizada em Dubai, quando países como Arábia Saudita e Índia resistiram à proposta de abandono do petróleo e do carvão.
“Dois anos atrás, o mundo concordou em fazer a eliminação gradual do petróleo, do carvão mineral e do gás. Agora precisamos decidir em que horizonte de tempo isso deve acontecer e em que ordem, com os países ricos tomando a dianteira”, afirmou Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima. “Belém falhará com bilhões de atingidos por eventos extremos caso se omita sobre esse assunto”, completou.
Transição energética e florestas tropicais
Ligada ao debate sobre os combustíveis fósseis, a transição energética também ganha destaque na COP30. A proposta busca substituir fontes poluentes, como petróleo e gás natural, por alternativas limpas e renováveis — solar, eólica e hidrelétrica.
Durante a Cúpula de Líderes, realizada na semana anterior também em Belém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu a criação de políticas concretas para acelerar o processo de transição e reiterou o apelo por uma transição “justa e inclusiva”.
Além disso, devem entrar na pauta planos de combate ao desmatamento na Amazônia e em outras florestas tropicais, bem como mecanismos de financiamento climático para países em desenvolvimento implementarem ações de preservação.
Risco de “superação climática”
Outro ponto central das discussões será a adaptação às mudanças climáticas. Cientistas alertam para o risco de o planeta entrar em um período de “superação climática” — ou overshoot, em inglês —, no qual as temperaturas ultrapassam temporariamente o limite de 1,5°C antes de uma eventual estabilização no fim do século.
Esse cenário, ainda que transitório, pode causar danos permanentes, como elevação do nível do mar, perda de biodiversidade e aumento de eventos extremos.
“A mensagem que fica, por parte dos cientistas, é de que precisamos garantir que não haja overshoot ou que ele seja o menor possível, pelo menor tempo possível”, alerta Stela Herschmann, especialista em política climática do Observatório do Clima. “Não estamos preparados para a devastação climática que significa ultrapassar 1,5°C. Vai nos custar mais vidas, tanto humanas quanto de inúmeras outras espécies.”
O papel do Brasil
No campo político, a COP30 será também um teste para a liderança do Brasil na agenda climática internacional. Lula reforçou o pedido para que países ricos cumpram compromissos de financiamento climático e cobrou maior responsabilidade das nações mais poluentes.
A fala veio poucos dias após o próprio presidente defender a exploração de petróleo na Margem Equatorial, o que gerou críticas e acusações de contradição. Lula, contudo, argumenta que é possível conciliar exploração e sustentabilidade, e que países em desenvolvimento têm o direito de utilizar seus recursos naturais enquanto constroem alternativas energéticas limpas.
Para o presidente, o debate climático deve incluir também questões geopolíticas, como os impactos ambientais causados por guerras e conflitos armados, a exemplo da guerra na Ucrânia.
Com os olhos do mundo voltados para Belém, a COP30 começa sob expectativa e tensão — entre o otimismo com a liderança brasileira e o desafio de transformar discursos em ações concretas diante da crise climática global.