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Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disparou uma crise de relacionamento entre o Palácio do Planalto e a Polícia Federal (PF). Ao afirmar que existem agentes dentro da corporação que “fingem que trabalham”, o mandatário provocou um forte mal-estar institucional, levando associações de classe a se manifestarem publicamente em defesa dos servidores.
Em nota oficial divulgada nesta sexta-feira, a Associação dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) rebateu as críticas, afirmando que “não há qualquer fundamento para questionamentos generalizados” sobre a dedicação ou o desempenho dos policiais.
Para a ADPF, as palavras de Lula não apenas colocam em dúvida o comprometimento técnico de delegados e agentes, mas também prestam um desserviço ao debate sobre a violência no país.
A entidade destacou que o comentário do presidente:
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Desqualifica o servidor: Ao sugerir que profissionais estariam “fingindo trabalhar”, a fala ignora o risco e a complexidade das investigações.
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Simplifica o combate ao crime: Segundo a nota, a declaração “simplifica indevidamente o tema segurança pública e o combate ao crime organizado”, ignorando os desafios estruturais enfrentados pela corporação.
Abaixo a íntegra da nota da ADPF
A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) manifesta preocupação com as recentes declarações do Presidente da República que colocam em dúvida o comprometimento de Delegados da Polícia Federal, ao dizer que profissionais estariam “fingindo trabalhar”, e que simplifica indevidamente o tema segurança pública e o combate ao crime organizado.
A entidade ressalta que delegados atualmente cedidos ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, bem como a outros órgãos do Poder Executivo, do Judiciário e do Legislativo, exercem funções estratégicas e de alta relevância para o Estado brasileiro. São profissionais que seguem contribuindo ativamente para o fortalecimento das políticas públicas, não havendo qualquer fundamento para questionamentos generalizados sobre sua dedicação ou desempenho. Ademais, no momento 53 delegados estão cedidos a outros órgãos. Esse número representa menos de três por cento do total de Delegados de Polícia Federal em exercício. Portanto, não se deve induzir a sociedade a acreditar que a anunciada medida de retorno será o que irá vencer o crime organizado.
A ADPF destaca que, neste momento, o foco do debate deveria estar em temas estruturantes e urgentes para o enfrentamento ao crime organizado. Entre eles, o cumprimento da promessa feita pelo próprio Governo Federal de criação do Fundo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (FUNCOC), iniciativa essencial para permitir que recursos oriundos da atividade criminosa sejam revertidos em investimentos diretos no aprimoramento das estruturas de repressão qualificada.
A Associação também chama atenção para o cenário preocupante de diminuição da capacidade técnica da Polícia Federal, pela perda de talentos e competitividade da carreira de Delegado de Polícia Federal, em comparação com outras carreiras de mesma complexidade e responsabilidades do serviço público. Dados recentes evidenciam esse quadro: enquanto 104 novos delegados ingressaram na instituição nos últimos três anos, 50 optaram por deixá-la para assumir outros cargos. Paralelamente, houve redução significativa no interesse pelos concursos públicos, com queda de 321 mil inscritos em 2021 para 218 mil em 2025. Não basta ampliar o efetivo. É indispensável implementar políticas consistentes de valorização, retenção de talentos e financiamento adequado da instituição.
Por fim, a Associação reafirma que o enfrentamento ao crime organizado exige menos propaganda e mais ações concretas, investimentos contínuos nos profissionais e inteligência estratégica. Declarações que desqualificam policiais não contribuem para esse objetivo e fragilizam o debate público sobre segurança. A ADPF reitera o requerimento de abertura de mesa junto ao Governo Federal para que possa se estabelecer um diálogo apto à contribuição dos Delegados Federais com ideias e propostas efetivas para a defesa da Polícia Federal e o aperfeiçoamento das políticas de segurança pública em benefício da sociedade brasileira.