Entre nos nossos canais do Telegram e WhatsApp para notícias em primeira mão. Telegram: [link do Telegram]
WhatsApp: [link do WhatsApp]
A madrugada desta sexta-feira (21) foi marcada pela divulgação de diversos rascunhos da COP30, em Belém, horas depois da retomada das negociações interrompidas por um incêndio que atingiu a área da Zona Azul na tarde de quinta-feira (20). Os documentos, que servem como versões intermediárias das propostas discutidas pelos quase 200 países presentes, trouxeram novos contornos para alguns dos temas mais sensíveis da conferência.
Entre os textos publicados, o esboço do Mutirão Global era o mais aguardado — e também o mais polêmico. A presidência brasileira da conferência divulgou um rascunho que exclui a proposta de desenvolvimento de um plano global para a transição para longe dos combustíveis fósseis, retirada após constar em versões anteriores. A mudança gerou forte reação imediata entre países e organizações que defendem avanços mais ambiciosos.
Impasse sobre combustíveis fósseis volta ao centro do debate
A discussão sobre o futuro do petróleo, do gás e do carvão — principais responsáveis pelas emissões que impulsionam o aquecimento global — tem dominado os corredores da COP30. Nas últimas semanas, nações como Alemanha, Quênia e diversos Estados insulares têm pressionado pela criação de um “roteiro” claro, alinhado à promessa assumida na COP28 de acelerar a transição energética.
Em sentido oposto, países produtores de petróleo, como a Arábia Saudita, resistem à inclusão de qualquer compromisso explícito para abandonar os combustíveis fósseis. Negociadores afirmaram à Reuters que o bloco saudita trabalhou nos bastidores para retirar o tema do texto. O governo saudita não respondeu aos pedidos de comentário.
O rascunho, ainda sujeito a mudanças, precisará ser aprovado por consenso — o que indica que negociações intensas devem continuar e possivelmente se estender ao fim de semana, como é tradição nas cúpulas climáticas.
Financiamento para adaptação segue indefinido
Outro ponto central do novo texto é o apelo para triplicar até 2030 os recursos destinados à adaptação climática, tomando como base os níveis de 2025. O documento, porém, não esclarece quem deverá arcar com o aumento — se países desenvolvidos, bancos multilaterais ou o setor privado.
Investimentos em adaptação, como reforço de infraestrutura e proteção contra eventos extremos, são essenciais para salvar vidas, mas costumam atrair pouco interesse privado por não oferecer retorno financeiro imediato. A falta de clareza sobre o financiamento preocupa delegações mais vulneráveis.
Comércio global entra na pauta da COP
O esboço também sugere a criação de um diálogo sobre comércio nas próximas três COPs, envolvendo governos e entidades como a Organização Mundial do Comércio (OMC). A pauta agrada países como a China, que há anos defendem a inclusão do tema, mas pode gerar atritos com a União Europeia, frequentemente pressionada por sua taxa de carbono na fronteira — criticada por Índia e África do Sul.
Reações imediatas: pressão internacional e críticas de ONGs
A retirada do roadmap para o abandono dos combustíveis fósseis provocou forte reação. Mais de 30 países enviaram uma carta conjunta na noite de quinta-feira (20) afirmando que não apoiarão um texto final que exclua um plano global de transição energética. Entre os signatários estão França, Colômbia, Reino Unido e Alemanha.
As nações afirmaram que só considerarão um resultado que inclua “um mapa do caminho justo, ordenado e equitativo para deixar os combustíveis fósseis para trás”.
Organizações ambientais também criticaram o conteúdo dos rascunhos. O Observatório do Clima classificou o “Pacote de Belém” como desequilibrado e afirmou que ele “não pode ser aceito como resultado da conferência”.
Com o prazo oficial de encerramento previsto para esta sexta-feira (21) — embora seja quase certo que as discussões avancem pela madrugada e pelo fim de semana —, a COP30 entra em sua fase decisiva sob forte pressão internacional e diante de um dos impasses mais profundos da diplomacia climática contemporânea.