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O Censo 2022 do IBGE, divulgado em maio de 2025, identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil, número que corresponde a cerca de 1,2% da população brasileira. O autismo frequentemente causa dificuldades na fala, deixando muitas crianças não verbais ou fazendo com que aprendam a falar bem mais tarde do que seus pares neurotípicos.
Crianças autistas com problemas de fala já demonstraram benefícios com terapias intensivas, exercícios verbais e o uso de dispositivos de auxílio durante os primeiros anos escolares.
Uma nova pesquisa indica que as terapias de fala não apenas são eficazes, como também oferecem grandes chances de sucesso, com dois em cada três crianças autistas conseguindo aprender a falar com o apoio dessas intervenções.
Pesquisadores da Drexel University, em Filadélfia, analisaram mais de 700 pré-escolares com TEA que receberam terapias de intervenção de fala por períodos que variaram de seis meses a dois anos. Em média, as crianças passaram cerca de 10 horas semanais em terapia.
Do total de crianças estudadas, dois terços desenvolveram linguagem falada, enquanto um terço permaneceu não verbal ou sem progresso.
Os especialistas acreditam que as crianças autistas conseguiram melhorar a fala graças a terapias como o Early Start Denver Model (ESDM), que foca em brincadeiras e na construção de relações positivas para estimular a linguagem.
Outros métodos utilizados incluíram a terapia TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Related Communication Handicapped Children), que utiliza pistas visuais, espaços organizados e horários estruturados para potencializar a fala.
A equipe ressalta que a duração da terapia, mais do que a intensidade, foi associada a melhores resultados em crianças não verbais. Ou seja, passar meses ou anos com 10 horas semanais pode ser mais eficaz do que sessões diárias de 20 a 40 horas por um período curto.
O Dr. Giacomo Vivanti, autor do estudo e professor associado e líder de Detecção e Intervenção Precoce no AJ Drexel Autism Institute, afirmou:
“Quando os pais me perguntam se seus filhos devem passar por essas intervenções para adquirir linguagem falada, a resposta após este estudo ainda é sim. Nosso estudo mostra que, mesmo aplicando práticas baseadas em evidências, algumas crianças ainda ficam atrás. Por isso, é fundamental monitorar cada caso e ajustar a terapia conforme necessário.”
Dados recentes do CDC indicam que uma em cada 31 crianças nos EUA tem autismo, um aumento em relação a uma em cada 150 no início dos anos 2000.
Ainda não se sabe exatamente o que explica o aumento nos diagnósticos, mas o secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., sugeriu que toxinas ambientais como mofo, pesticidas, aditivos alimentares, medicamentos ou ultrassons possam estar relacionados.
Especialistas em autismo também destacam que médicos estão mais capacitados para identificar a condição, especialmente em grupos anteriormente subdiagnosticados, como meninas e adultos, o que pode explicar parte do aumento.
O estudo da Drexel, publicado em 2025 no Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology, avaliou 707 crianças autistas entre 15 meses e cinco anos, com média de idade de três anos.
As crianças participaram das terapias por períodos de seis meses a dois anos, totalizando cerca de 10 horas semanais.
Do total, 216 crianças estavam no programa ESDM, que envolve pais e terapeutas em atividades lúdicas conjuntas para fortalecer a linguagem. Outras 208 participaram de Intervenções Comportamentais Naturalistas (Naturalistic Developmental Behavioral Interventions), baseadas em brincadeiras iniciadas pela criança.
Mais 197 participaram da Intervenção Comportamental Intensiva Precoce (Early Intensive Behavioral Intervention – EIBI), terapia individual voltada a habilidades sociais e atividades diárias, como vestir-se.
O último grupo, com 86 crianças, participou da TEACCH, que prioriza organização e independência, utilizando horários visuais e espaços estruturados.
No início do estudo, 66% das crianças eram consideradas “minimamente falantes”, ou seja, não conseguiam combinar palavras para formar pequenas frases.
Ao final das terapias, 66% das crianças que não falavam no início aprenderam palavras isoladas ou avançaram em suas habilidades de linguagem. Entre as minimamente falantes, 50% conseguiram combinar palavras em frases.
No entanto, um terço das crianças que não falavam no início continuou sem falar após dois anos, e metade do grupo minimamente falante não apresentou avanço.
Os pesquisadores observaram que crianças que não avançaram geralmente estavam em terapias de curta duração, enquanto aquelas em terapia de seis meses a dois anos tiveram maior progresso. Crianças que conseguiam imitar sons e ações mais efetivamente no início do estudo também apresentaram mais chances de desenvolver a fala.
Vivanti explicou:
“Essas habilidades prévias de comunicação podem criar a base para a linguagem falada. Imitar ações de outras pessoas pode ajudar mais tarde a imitar palavras, e daí usar a linguagem para expressar pensamentos.”
O estudo teve algumas limitações, como acompanhar as crianças por no máximo dois anos, mas os autores acreditam que ele pode abrir caminho para pesquisas mais abrangentes.
“Muitas vezes, pesquisadores relutam em divulgar dados de intervenção, especialmente em crianças que não respondem de forma ideal às terapias já estabelecidas como baseadas em evidências,” disse Vivanti.
“Este estudo demonstra disposição da comunidade de intervenção precoce em colaborar e aprender mais sobre como ajudar todas as crianças.”